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2018-08-21 22:10:01 -0300
As Duas Irenes
cinemaqui
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Poucos filmes me deixam sem palavras por causa das camadas emocionais em que ele coloca o espectador (e que depois fica difícil de sair uma a uma). As Duas Irenes é um desses filmes, mas longe do motivo ser apenas a história ou as atuações. É toda a produção. Isso pode ser minha memória afetiva que foi aguçada com tantas referências a uma época que não existe mais. E se for, garanto que vai sentir o mesmo se prestar atenção.

A direção de arte e a fotografia nos transporta para uma sensação. As cores claras e o sol a pique, com a estrada sempre cheia de luz do sol, as paredes das casas sempre secas e o vento nas folhas e nos cabelos sempre bem-vindo demonstram que esta é uma época quente, onde todos precisam se refrescar de vez em quando. A empregada geralmente está do lado de fora da casa ou próxima da janela da cozinha. E olha que interessante: a segunda mãe, da outra casa, onde não tem empregada, também fica com janelas abertas em uma casa bem arejada. Quero dizer, até o cinema da cidadezinha parece querer respirar com suas poltronas de um amarelo claro surrado.

E tudo isso nos faz lembrar do figurino, com roupas igualmente claras, e leves, e muito poucas. Apenas o necessário, mesmo para a família abastada. Os protetores de mosquito das camas dessa família também nos lembra do calor e seus insetos irritantes. Há uma cena próximo do rio onde ficam as duas Irenes e os outros jovens, próximo do pôr-do-sol, onde pode-se ver um enxame de insetos sobrevoando uma luminária já acesa.

Mas, voltando às roupas: note como às vezes há, sim, um pouco de tons escuros da família principal. Eles têm diferença entre eventos informais e formais. Um vermelho mais sisudo para a patroa ou adornos mais caprichados para as filhas. Cada cena parece um quadro dos tempos antigos. Anos 70, 80, talvez? Por aí. Não há uma marcação exata, mas sabemos que é uma época familiar para quem já tem suas décadas de idade.

A história apresenta duas talentosas atrizes. Priscila Bittencourt, a protagonista, é a Irene que tem duas irmãs e é a do meio. Quem já foi ou é irmão do meio sabe como é duro chamar a atenção. Três irmãs, então, naquela época, a mais velha sempre será o xodó, seguida da caçula, talvez. Esta Irene não deu sorte em sua família, e todos os olhares e trejeitos de Bittencourt são para deixar o espectador ciente de como ela está incomodada com a situação. Ela é observadora, quase não fala. Ela está descobrindo ainda o que se passa em sua cabeça quando a vemos com uma pedra na mão, a raiva inicial, de ter descoberto que seu pai tem outra família. E outra Irene.

E essa Irene é filha única. Interpretada por Isabela Torres, é mais extrovertida. A primeira vez que a vemos ela está em um desfile de moda da escola, andando pela passarela com desenvoltura. E apesar de ambas as Irenes terem a mesma idade, 13 anos, seu corpo é mais desenvolvido. Especialmente os seios. E isso faz a pequena Irene sempre murcha, a acompanhando sempre atrás. Vá reparando como isso aos poucos muda, e verá que o trabalho de Bittencourt é bem mais complexo, pois tem que fazer uma curva em sua personagem.

Esta também é uma história social, pautada nos nomes. Quando ela se insere na vida da robusta Irene, adota o nome de Madalena, que é o nome da empregada da família. Quando fala para Madalena que já beijou alguém chamado Murilo, ela está descrevendo a experiência de sua meia-irmã. Ambas são filhas biológicas, algo meio óbvio para a época, mas você só mata essa dúvida de vez quando a pequena Irene pergunta sobre a escolha do nome. De qualquer forma, voltando à produção, é a atmosfera que nos diz muitas coisas sobre essa história. Quase nada está nos diálogos, que são simples, monossilábicos, e escolhidos a dedo.

O diretor Fabio Meira exibe uma sensibilidade neste filme a cada cena; é nos objetos, no chão, nas paredes, nas roupas, nas posturas de seus personagens. E nos enquadramentos: sua câmera mal se mexe porque ele já escolhe a posição perfeita no começo da cena. Às vezes até a altura perfeita para o que vai acontecer. A tela é mais larga, cinemascope, porque ele está cheio de ideias de como completar o quadro. Em um momento icônico, vemos o pai recém-chegado estirado no sofá, e uma pequena Irene pronta a questioná-lo. Não vemos sua cara. Ela está de pé e o plano no momento não a contém. Mas sabemos que ela o está observando, medindo... daí ela se senta na poltrona da frente, do outro lado da tela, quando a vemos. Uma escolha perfeita que mantém a câmera inerte e os personagens mudam de lugar para preencher o significado.

Meira também abusa um pouco do espelho e sua simbologia da vida aqui e lá, representando as duas famílias. O filme flerta com o clichê ao mostrar o reflexo duplo da pequena Irene no espelho do quarto, mas o resultado parece necessário, pois no fundo ele está nos dizendo: a pequena Irene está em busca do seu lugar; ela não aceita mais ser a segunda opção. Agora deverá se contentar em ser a segunda Irene? Nem pensar!

E por falar em pensar, este filme tem um ritmo lento que vai te deixar pensando em muitas coisas. Aqui vai minha sugestão: pense. Deixe os devaneios fluírem. Será que o pai da grande Irene mimou demais a menina, não apenas por ser filha única da segunda família, mas talvez por não prover tantos recursos quanto para a primeira família? E a segunda Irene, por que ela parece tão deslocada do resto da família burguesa? E sua mãe, ela sabe? E se sabe, seus comentários tornam-se os mais divertidos, pois ela possui uma camada extra de proteção contra conversas em família. Há muitas coisas a pensar, esses são apenas exemplos.

Poucos filmes me deixam sem palavras e com muito a sentir. E esse, quando vemos uma pedra na mão de outra Irene, o vento brisando em um misto de folhas verdes das árvores, uma rima carinhosa no final, com um desfecho à altura de tudo o que vimos até então. E se formos observar de muito perto, pensar pela última vez em tudo que aconteceu, talvez não haja muito mais o que pensar afinal de contas; só sentir. Sinta o vento em seus olhos. Sinta esse tempo e essas pessoas que não existem mais.


"As Duas Irenes (aka Two Irenes)" (Brasil, 2017), escrito e dirigido por Fabio Meira, com Priscila Bittencourt, Isabela Torres, Marco Ricca.

Trailer - As Duas Irenes