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2018-11-01 13:45:29 -0200
Domingo
cinemaqui
9025112
true

É muito fácil tirar sarro da caricatura da burguesia, com sua gente alienada e auto-centrada no próprio umbigo e propriedades. Difícil é, além de tirar sarro, manter o realismo para que os personagens próprios não virem eles próprios caricaturas. "Domingo", trabalho conjunto de dois diretores, Fellipe Barbosa e Clara Linhart, seguindo o ambicioso roteiro de Lucas Paraizo, consegue realizar isso e ainda mantém várias bolas no ar, dando conta de diversos personagens enquanto tece sutilmente sua crítica social.

A história gira, como o próprio nome diz, em um dia de domingo com a família. Aquele velho churrasco no sítio. Mas não é apenas um dia comum, mas a posse do novo presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, no primeiro dia de 2003. Mas ninguém liga e faz piada ou descaso; estão todos preocupados com a própria vida e os conflitos familiares que surgem à tona. Exceto a empregada "consciente" (pobres também podem ter caricaturas) que assiste pela televisão à posse. A alienação é demonstrada quando a grande massa burguesa nem sabe que é domingo e confunde com sábado (observação relevante: essa é apenas uma obra de ficção; o dia primeiro de janeiro de 2003 na verdade foi uma quarta-feira).

O filme consegue reunir todos os tipos de personagens de todas as gerações em uma família burguesa típica e ainda dar tempo de tela para todos os conflitos. A maneira com que os realizadores fizeram isso foi mostrando múltiplas ações no mesmo espaço. Enquanto acompanhamos o conflito principal ocorrendo entre as vozes que falam mais alto, no fundo ou no lado também observamos conflitos secundários, terciários. Tudo ocupa o mesmo quadro e depende do espectador prestar atenção em um conflito principal que se inicia, por exemplo, em um carro quase partindo do sítio e que termina sutilmente ao fundo de uma mesa que discute outro assunto. "Domingo" está a todo tempo mostrando ação simultânea não apenas como uma sacada genial narrativa, mas também pelo próprio realismo da vida, já que dificilmente as coisas na vida real acontecem uma a uma em fila. Quando a família se reúne são várias conversinhas paralelas rolando.

É até difícil elencar qual delas é mais importante, pois todas recebem igual atenção e todas se relacionam. O roteiro de Fellipe Barbosa inteligentemente decide não ser esperto demais ao abrir e fechar pequenos arcos dramáticos, preferindo deixá-los evoluir organicamente e terminar como geralmente terminamos as desavenças: com o próximo evento ocorrendo e chamando a atenção dos demais.

A não ser nos assuntos centrais que o filme parece querer discutir com mais reverência, como a já citada posse do presidente, os diversos casos de luxúria dentro da família envolvendo traição e a questão primordial da propriedade, pilar principal com que a atriz Ítala Nandi e sua matriarca Laura seguram a performance absolutamente magistral de uma mulher que tenta controlar a tudo e a todos da maneira com que sempre agiu, dando ordens ou cutucando feridas, além dos conselhos de avó sempre inapropriados e que revelam claramente um desejo oculto de poder. Se torna até icônico o breve momento em que ela para para observar o discurso do novo presidente, como se finalmente estivesse olhando para alguém de igual para igual.

E ainda no campo das atuações será preciso elogiar a maneira completamente tresloucada e ao mesmo tempo realista com que a talentosíssima Camila Morgado vive sua Bete, uma mulher casada com um homem dessa família do Sul e que sempre é colocada à margem, e que por isso mesmo entendemos sua postura anárquica e hedonista, pois é sua única escapatória para manter a pouca sanidade que parece exibir.

Os diretores estiveram à frente da tela antes do início da última projeção da Mostra para falar sobre a ironia que ocorre neste momento. Eles dizem que naquela época muitos temiam uma ditadura comunista e eram obviamente motivo de piada pelo resto da população. Agora "eles" (imagino que a esquerda) se sentem da mesma maneira, sendo alvos de escárnio por temerem um movimento de extrema direita vinda da vitória de Jair Bolsonaro na presidência. O diretor, Fellipe Barbosa, captou com perfeição a ironia. Mas ao terminar sua introdução ao filme, ao manter um semblante e um tom sério demais para a ocasião, parece ter falhado miseravelmente em entender o sarcasmo. E isso, pessoalmente, eu acho muito mais revelador que a belíssima ficção que eles desenvolveram.


Domingo (Brasil, França, 2018), escrito por Lucas Paraizo, dirigido por Fellipe Barbosa, Clara Linhart, com Ismael Caneppele, Augusto Madeira, Camila Morgado, Ítala Nandi, Martha Nowill, Silvana Silvia, Chay Suede, Clemente Viscaino e Michael Wahrmann. Política, sociedade, história, família.

Trailer - Domingo