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2018-09-28 18:27:46 -0300
Legalize Já! Amizade Nunca Morre
cinemaqui
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Quase trinta anos após iniciado um movimento artístico liderado pela banda Planet Hemp, "Legalize Já!" ainda soa provocador. Extraído de um momento na história do país onde política e alienação andavam de mãos juntas, a mini biografia de Marcelo D2 e Skunk é muito mais sobre uma amizade inusitada do que uma crítica social.

Mas claro que nos tempos atuais a roupagem do filme vai tentar de todas as formas ser uma crítica social. O que me dá muita preguiça, pois repete mecanicamente a mesma fórmula da dualidade opressão/oprimido que é alimentado pelo sistema, algo já utilizado em centenas de trabalhos semelhantes. Essa realmente não é a parte boa da história. A parte boa mesmo é a amizade natural entre esses dois jovens.

Skunk é um negro vindo do microcosmos artístico da contracultura, inspirado por bandas que cantam suas mágoas de crescer em um ambiente sem oportunidades de viver de sua arte. (O irônico aqui é que essas bandas, ao se tornarem influenciadoras, passam a literalmente viver de sua arte.) Skunk é uma força da natureza que dá seus últimos suspiros na Terra. Tendo AIDS na década de 90 e se recusando a tomar seus remédios, o espectador já sabe o que esperar: este será o mártir da história.

Justamente por isso sua caracterização no filme é iconográfica demais. Interpretado com uma naturalidade ímpar por Ícaro Silva, que sintetiza uma figura indignada com a sociedade e fazendo valer suas ideias em fitas K7 que distribui aleatoriamente entre a multidão, não sabemos muito sobre sua vida, nem seus pecados, nem seus desejos. Exceto um: depois de topar acidentalmente com Marcelo (uma cena em paralela empolgante), torná-lo o bastião das boas novas da música de revolta no cenário brazuca. É estiloso, ele se veste bem, mas algo soa falso nesse personagem da vida real que sempre é abordado pela polícia e tem suas fitas jogadas no chão. Importante lembrar que o DJ que vive andando por aí espalhando suas fitas é tão clichê que já nos anos 90 era batido. Nem por isso a atuacão de Ícaro se torna menos interessante.

Já Marcelo, como não poderia deixar de ser, partindo de um argumento do próprio Marcelo D2 que levou à produção do filme, é um herói anti-establishment. Vive na casa do pai, mas logo terá que seguir o próprio rumo, pois sua namorada está grávida e eles precisam do dinheiro para abortar, e é curioso notar como "Legalize Já!" passa longe dessa outra atividade considerada crime ainda hoje em solo nacional. Enquanto Ícaro convence com a aparição misteriosa de Skunk, Renato Góes parece levar a pior, pois precisa viver um personagem que é muito mais ele apenas quando está cantando. Na maioria do tempo ele é um cidadão anônimo em busca do seu lugar ao sol.

Se Skunk parte de uma fábula do negro injustiçado, Marcelo tem poucas chances de ter seu drama levado a sério. Seu maior sacrifício na vida parece se sujeitar a trabalhar de vendedor em uma loja de eletrodomésticos. Bom, se considerarmos que na loja as músicas escolhidas para entreter o cliente são "na boquinha da garrafa" e similares, hits dos anos 90, talvez o filme tenha seus motivos para dramatizar a rotina sufocante de Marcelo, que já escrevia suas letras de revolta há um tempo.

De qualquer forma, o melhor no filme continua sendo a amizade desses dois. Não há tensão suficiente para construir outra narrativa mais poderosa enquanto os dois conseguem criar uma dinâmica que mantém, sob o som de suas obras, um ótimo panorama do que era viver de maneira crítica na primeira década de reabertura do país.

Ainda assim, o filme tenta traçar seu tom realista e dramático através das cores drenadas em uma fotografia pálida e chapada. Quase preto e branco. Mensagem subliminar ou uma forma elegante de criar enquadramentos granulados e evocativos de uma vida sem esperança de melhora?

Note como o uso do enquadramento, por exemplo, coloca Marcelo como um cara minúsculo em frente a uma paisagem urbana que intimida e aliena, ou como Skunk vira mais um artefato em meio a pôsteres da casa de shows underground Garage, para através do zoom virar personagem principal, como se ele próprio fosse o próximo pôster a ser pendurado na parede como uma lembrança saudosa.

Filmes de bandas sempre possuem a vantagem da trilha sonora e da dinâmica do vídeo clipe. Aqui não é diferente. Com o adendo da amizade dos dois. Isso é suficiente para assistir esse filme se você for fã, e um motivo razoável se aprecia biografias de bandas. Para o resto, quem não curte uma viagem temporal regada a maconha? Apenas as autoridades ainda não perceberam.


"Legalize Já! Amizade Nunca Morre" (Brasil, 2017), escrito por Felipe Braga e L.G. Bayão, dirigido por Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, com Renato Góes, Ícaro Silva, Marina Provenzzano.

Trailer - Legalize Já! Amizade Nunca Morre