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<meta name="GENERATOR" content="Microsoft FrontPage 3.0">
<title>Jorge Colombo</title>
</head>
<body bgcolor="#CD8144" text="#FFFFFF" link="#800000" vlink="#C0C0C0" alink="#FF0000">
<div align="center"><center>
<table border="0" cellpadding="0" cellspacing="10" width="60%">
<tr>
<td width="100%"><font face="Arial"><img src="colomb_2.jpg" width="324" height="234"
alt="colomb_2.jpg (28440 bytes)"></font></td>
</tr>
<tr>
<td width="100%"><font face="Arial"><font color="#FFFF9D"><strong><big><big><big>A Cidade
Retrato</big></big></big></strong></font><br>
<em>João Paulo Cotrim</em></font><p><font face="Arial">É esta a carne das
coincidências. Se não acontecem exactamente assim, serão cruzamentos de ocasiões, cuja
função nos mapas dos nossos dias é distrairem-nos do importante, fazerem-nos seguir por
caminhos sem saída. As verdadeiras coincidências significativas, isto é, as que nos
levam a algum lugar, têm de acontecer como a ilustração que se vai tornar, garanto,
emblema de <i>Fullerton</i>. Há meses que vínhamos preparando esta exposição, com o
empenho das coisas importantes, mas com a exacta lentidão que elas precisam para
amadurecer ignorando todos os planeamentos. Só muito no fim, num engarrafamento de
encomendas, o Jorge resolveu pensar numa ilustração que servisse para o convite. Acabou
por fazer uma das suas melhores ilustrações, aquela que é verdadeiramente um convite a
entrar, mais do que na simples exposição, numa obra. </font></p>
<p><font face="Arial">É noite, e é por isso que brilha um céu azul pesado que empurra
uma fileira de prédios absolutamente norte-americanos. O primeiro deles, uma massa escura
pontuada pelo suave reflexo das janelas, serve de palco à «altiva solidão» de uma
caixa de água e de um homem. Que faz ele ali? Desenha, isto é, recolhe imagens? Ou lê
alto poemas, isto é, atira palavras? Entre prédios corre um rio calmamente riscado por
um barco. Em resposta um avião parece imóvel como um selo numa carta. O claro deste
momento <i>chiaroscuro</i> está noutro meio de transporte, um táxi absolutamente
norte-americano de tão amarelo, e nas janelas que, sem cortinas, nos oferecem as linhas
de um <i>loft</i> despido, e, enfim, nas nódoas humildes de dois candeeiros de rua. No
recorte melancólico da paisagem reina a figura humana onde se cruzam todas as perguntas.
Outra vez: que faz ele ali? Passa-se alguma coisa? É dele o apartamento? O táxi
espera-o? Perdeu o avião? Resolveu ficar? Vigia o outro madrugador? É apenas o porteiro
de braços cruzados com insónias? Quantas histórias se condensam aqui nesta natureza
viva?</font></p>
<i><p><font face="Arial" color="#FFFF9D">Este lugar e não outro</font></i></p>
<p><font face="Arial">Esta ilustração expressamente feita para um postal contém os
ingredientes com os quais Jorge Colombo (Lisboa, 1963) está a construir uma obra
artística, algures entre o registo diarístico, a literatura de viagens e o pictórico
retrato urbano, com respectiva fauna e flora. Para tanto usa sempiternos conflitos entre
noite e dia, luz e sombra, interior e exteriores, corpo e paisagem, detalhe e conjunto,
fidelidade e reinvenção, ficção e realidade. </font></p>
<p><font face="Arial">Apliquemos ao caso em concreto. A luz é a grande matéria de
trabalho para Jorge Colombo e onde reside o mistério das suas imagens. Aqui somos tocados
não apenas pelo modo como o dia nos é anunciado, mas pelo modo como as propriedades dos
sólidos se alteram com a luz, como as coisas ganham personalidade: o prédio principal é
quase negro, mas mantém na sombra cada <i>nuance</i> de vidro, enquanto todos os outros
se distinguem com subtilezas, num espectro que vai da cor de tijolo à esquerda, ao
castanho mais escuro à direita. Este pequeno postal ilustrado, que costuma ser sinónimo
de lugar comum, oferece-nos um particular horizonte, que nos deixa aceder a um íntimo
interior. Mais: o táxi e os prédios deste lado da margem fazem as vezes de lar: o meu
bairro é o mundo. Detectei até agora dois corpos na cena, mas são eles que parecem
justificar tudo, são eles os pilares da cidade, são eles que justificam a geologia, que
a vivificam. São pontos, mas que fazem do nada só o resto. Ora as figurações,
paisagísticas ou não, deste autor revelam sempre um pormenor perturbador. A riqueza do
detalhe e o rigor do contorno ajudam os nossos olhos a encontrar uma paz fotográfica, mas
trata-se de uma fidelidade fingida. Percebe-se melhor nos corpos e nos rostos: estão tão
longe da caricatura como estão do retrato. A caneta do Jorge Colombo interpreta, não
reproduz. E é por esta porta que entra o mistério. Na aparência estamos a ver uma cena
tipicamente urbana, mas afinal acedemos ao sentimento do seu autor. Tudo o que ele quer
mostrar com clareza esconde, afinal, alguma coisa. Pode ser um segredo ou uma banalidade,
mas é seguramente o espírito do lugar reconhecível, a poesia concreta do objecto, a
sabedoria palpável daquele rosto. É esse o objectivo da literatura de viagens, ou pelo
menos dos viajantes, ir de encontro ao espírito, ouvir a poesia e recolher a sabedoria.</font></p>
<p><font face="Arial">Daí a sensação reconciliadora que se desprende das ilustrações
que &#150; apesar de ter origem naqueles internos enfrentamentos, ou melhor, naquelas
danças melancolicamente pop &#150; é como uma bossa novaiorquina que murmura o
bem-estar.</font></p>
<i><p><font face="Arial" color="#FFFF9D">A descoberta da América</font></i></p>
<p><font face="Arial">«Embora me ache rodeado de ficções gráficas arrebatadoras - os
sonhos maus de J.C. Denis, a exactíssima verbosidade de Peter Bagge, a pseudo-ficção
romântica de Seth, a dolorosa carne viva de De Crécy e Chomey - criar caracteres
imaginários, expor os meus pontos através de acções fictícias ou camufladas,
pessoalmente interessa-me pouco. Em muitos casos acho mesmo que o plot, o enredo, é
sobrevalorizado. Exemplo clássico são os irmãos Coen: em Barton Fink, ou The Big
Lebowsky, a exposição dos personagens, a observação dos ambientes, tudo é perfeito;
mas depois estragam tudo com estorinhas artificiais, as pontas soltas todas atadas no fim.
Gozava o Robert Mitchum que o Joseph Losey era o género de cineasta que se chateava um
bocado com seres humanos na câmara; «mas depois, dessem-lhe uma sala bem mobilada, ou
umas escadarias para filmar, e ele estava nas suas sete quintas.» A minha reacção é:
que mal tem isso? Tanta poesia tem sido espantosamente escrita sobre escadas, ou
aquecedores, ou casacos; porque temos nós que acrescentar enredos construídos e
diálogos inventados?</font></p>
<p><font face="Arial">Se para aí eu estivesse suficientemente virado, preferiria
trabalhar na onda das fictícias críticas literárias e investigações históricas do
Jorge Luís Borges. Ou resumir-me à brevidade eficaz de certas canções pop sem ficção
mas com opinião e verve. O que eu não dava para escrever um momento como David Hamilton
do Momus; ou o Mes Hommes da Barbara; ou o Sampa do Caetano Veloso. Mas até ver vou
trabalhando nos retratos &amp; paisagens.» </font></p>
<p><font face="Arial">Há muito que Colombo, ainda antes da descoberta da América, nos
anos 80, trabalhava em retratos &amp; paisagens, embora alguns retratos fossem escritos e
outras paisagens fossem gráficas, tendo como traço comum a minúcia e a verbosidade.</font></p>
<p><font face="Arial">A infância arruma-se numa frase para chegar, nos finais de 70, à
estreia na escrita. O Jorge e o Vasco (três anos mais novo, e igualmente activo nos
campos da ilustração e design), filhos de um casal da classe média de «esquerda
discreta, com estímulo intelectual, mas nenhum precedente artístico», moraram Algés e
Linda-a-Velha, onde tiveram, de par com a leitura de revistas como <i>Mundo de Aventuras,
Falcão, Tintim, Jacto</i> e <i>Visão</i>, a convivência com o vizinho Victor Mesquita. </font></p>
<p><font face="Arial">Depois de uma passagem pouco interessada pelas Belas Artes, onde
apenas as aulas de Lagoa Henriques o fascinavam, não se estranha que seja BD o assunto
sobre o qual começou a escrever no <i>Tintim</i>, no <i>JL</i>, e no <i>Se7e</i>, tendo
mantido neste último uma polémica actividade crítica, não apenas aos trabalhos, mas
aos comportamentos e às figuras deste universo. Influenciavam-no a «torrencialidade
opinativa» de nomes como Philippe Garnier, francês em Los Angeles, fascinado
absolutamente pela paisagem cultural norte-americana, e Fernando Assis Pacheco, repórter
de mão-cheia, poeta notável e crítico literário sobejamente visual.</font></p>
<p><font face="Arial">Também cedo começou, por via de um convite de Maria Armanda
Passos, a ilustrar a revista Plural; António Mega Ferreira trouxe-o depois para o <i>JL</i>.
Entretanto, trabalhou em livros (nomeadamente o <i>Fabulário</i>, de Mário de Carvalho,
na &amp;etc; vários livros de Clara Pinto Correia; e textos infantis de Carlos Correia) e
inúmeros trabalhos, em geral, associados ao <i>design</i>, o terceiro dos seus rumos.
Neste último, a sua assinatura ficaria ligada a uma série de livros e discos feitos nos
anos 80 (capas para Brett Easton Ellis, na Teorema, ou discos de Sérgio Godinho e dos
Heróis do Mar, por exemplo), mas, antes de mais, à primeira fase de <i>O Independente</i>.
E não apenas por ter desenhado um jornal fundamental no nosso panorama, mas por fazer com
que a ilustração tivesse nele um lugar único, despertando o trabalho de inúmeros de
autores, com novos métodos e critérios que deram à imagem uma dignidade até então
esquecida.</font></p>
<p><font face="Arial">Em 1988 conhece, em Lisboa, a artista texana Amy Yoes. Um ano depois
visitou-a em Chicago e não mais voltou. «Percorremos juntos mais de metade dos estados
da União. Casámo-nos em 1991; até ao fim de 1996 vivemos em Chicago, Illinois; dois
anos em São Francisco, Califórnia; em 1998 chegámos a Nova York.»</font></p>
<p><font face="Arial">Tudo o que havia feito até então revelou-se apenas preparatório.
Foi dos EUA que enviou crónicas para o <i>Expresso</i>; um conto para a Marie Claire,
além de <i>A Cidade Sombra</i>, um retrato de Chicago, para a mesma revista; e lá é o
assunto de <i>Tamanho Grande</i>, livro infantil que Inês Pedrosa o fez escrever,
ilustrar e publicar na D. Quixote, e que está cheio de cores (o céu lilás, o táxi
amarelo) e detalhadas descrições de comidas e&#133; paisagens. Como por lá dirigiu
graficamente o jornal <i>New City</i>, de Chicago, e a revista <i>San Francisco</i>, tendo
liderado <i>redesigns</i> em ambos. E foi do lado de lá do Atlântico que se deixou
fascinar pela paisagem urbana norte-americana, tendo vindo a ilustrar páginas de <i>Pulse!,
Chicago, The Village Voice, Mother Jones, The New Yorker, Playboy, San Francisco Examiner,
Details</i>. No fundo, esta meia centena de originais que se dão a ver em <i>Fullerton</i>
são a avenida principal desse trabalho, esboçada ao vivo, e depois redesenhados com
canetas Rotring e aguarelados em papel Arches, com «cores raramente fiéis à
realidade».</font></p>
<i><p><font face="Arial" color="#FFFF9D">Uma activa inacção</font></i></p>
<p><font face="Arial">Na mala foram afinidades, como Hergé ou Joost Swarte, que se
cruzaram com outras tantas, para tudo se enovelar em nomes que são linhas e pormenores:
os prédios de Tardi, a elegância prolixa de Javier de Juan, as experimentações de
Hockney, o atlas de paisagens de Loustal, as memórias aguareladas de Yan Nascimbene, a
manipulação inconográfica de Floc&#146;h, o <i>spleen</i> de Pierre Le-Tan, a
observação dos comportamentos de Maurice Vellekoop, a genialidade de Gluyas Williams, a
limpeza de traço de Abner Dean, a essência americana de Edward Hooper, as alegorias de
Guy Peelaert, os ícones de Mário Botas, os cenários de Wenders, o imprevisto olhar de
William Eggleston e, pois claro, a torrencialidade informativa e esclarecida de Philipe
Garnier, «tradutor» para francês de todos e cada um dos mitos norte-americanos. Terra
fértil, capaz de alimentar uma obsessão digna dos repórteres da <i>Ilustração
Portuguesa</i>: a cidade, sua fauna e flora e geografia, que é como quem diz, os retratos
&amp; paisagens, sobretudo de Chicago, mas seguidas agora pelas de Nova York.</font></p>
<p><font face="Arial">«Quando descobri o Javier de Juan envergonhei-me de tratar Lisboa
com tanta indiferença nos meus desenhos. Depois mudei de cidade e prometi nunca mais
tratar tão mal cidade que me hospedasse».</font></p>
<p><font face="Arial">O resultado é, portanto, este. São instantes congelados, onde a
acção é mínima, não vai além de uma cabeça que se volta ou um corpo que quase
corre. A volúpia está na descrição do mobiliário urbano, nos recantos interiores dos
aviões, no assinalar das bicicletas e nas linhas dos automóveis. Encontra razão de ver
na sobreposição das arquitecturas, nas combinações inusitadas das esquinas, no
aconchego das lojas, no seguimento de um muro, na dança das luzes. «Mesmo quando não
tenho nas mãos um bloco e uma caneta, fachadas e telhados entram-me pelos olhos, que se
perdem no labirinto das escadas de incêndio, na altiva solidão das caixas de água, nas
vertigens de tijolo e vidro antigo, ou nas guaritas desconjuntadas dos parques de
estacionamento.» </font></p>
<p><font face="Arial">É um registo deambulante, de vagabundo atento e obsessivo, que se
torna mais explicitamente diarístico nos interiores das casas, onde ressaltam os
enquadramentos, os jogos das linhas em descrição literária das intimidades, em
harmonia, ainda que estejam a contar desarrumações. São de novo cenas congeladas de
quotidiano, por vezes à espera dos actores, outras desertas pela sua partida, outras
ainda dando simplesmente conta dos vestígios da sua passagem. Afinal, um passo mais na
direcção dos retratos-rosto. Só neles se vislumbram momentos outros que não de
melancolia deleitada na observação. Só pelo rosto dos amigos e transeuntes se chega a
outros sentimentos e opiniões. É que a cidade de Jorge Colombo é uma superfície
tranquila, <i>haikus</i> que só pelo esforço de leitura revelam as turbulências que
alimentam qualquer urbe. «Tudo me chega com memórias agarradas, com mossas do passado:
as venerandas cidades americanas têm ruas coçadas, e nenhum pormenor condiz. Há sempre
um curto-circuito visual a crepitar, uma incongruência provocante entre intenções e
resultados».</font></p>
<p><font face="Arial">O novo projecto é uma evolução de caçador, que busca o imediato
e assume de vez o cidadão enquanto rosto da cidade. Trata-se de <i>The Dailies</i>.
«Todos os dias assinalo nas ruas de Nova York uma personagem interessante, tomo notas
apuradas da postura e da indumentária, e faço em casa um desenho rápido. Página a
página, começo a formar um retrato colectivo do nova-iorquino médio com bastante
interesse.»</font></p>
<p><font face="Arial">Curiosamente, retoma de algum modo uma característica do trabalho
de Colombo antes da descoberta da América: a figura humana em elegante e fino contorno,
em harmonias tensas que desembocavam em belas mãos. Com dedos como prédios.</font></td>
</tr>
</table>
</center></div>
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</html>