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| <HTML> | |
| <HEAD> | |
| <TITLE>Fonoteca Municipal de Lisboa - Espaço 1999 - Rádio em Portugal: O Caos Herteziano</TITLE> <META HTTP-EQUIV="Content-Type" CONTENT="text/html; charset=iso-8859-1"> | |
| </HEAD> | |
| <BODY BGCOLOR="#FFFFFF"> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><I><B><font size="3">RÁDIO | |
| EM PORTUGAL: O CAOS HERTZIANO</font><BR> | |
| </B></I><u>por Rui Miguel Abreu</u></font></P> | |
| <P> </P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A rádio | |
| foi em Portugal o meio de comunicação social que registou a mais | |
| rápida e espectacular evolução desde a abertura ao sector | |
| privado nos anos 80. Uma evolução que culminou no actual panorama, | |
| com novas estações e empresas a disputarem audiências num | |
| espectro algo caótico e, dizem muitos, mal regulamentado.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Devido à | |
| introdução tardia da televisão a rádio nunca perdeu | |
| o seu papel preponderante no tecido da comunicação social portuguesa. | |
| Tanto mais que a abertura das televisões ao sector privado conta ainda | |
| com poucos anos e não muito tempo antes os canais estatais de televisão | |
| continuavam a praticar horários de emissão que deixavam à | |
| rádio um alargado leque de exclusividade nas ondas hertzianas. Entende-se | |
| assim o peso mítico de nomes como o do Rádio Clube Português | |
| e o apego das pessoas à rádio. Aliás, no ano em que se | |
| comemora o primeiro quarto de século cumprido sobre o 25 de Abril de | |
| 1974, não é demais lembrar que a rádio foi usada como meio | |
| de dispersão da revolução com a famosa senha "escondida" | |
| no "E Depois do Adeus" interpretado por Paulo de Carvalho. No pós | |
| 25 de Abril a rádio desempenhou igualmente um papel activo na difusão | |
| dos ideais revolucionários, prova do seu poder de penetração | |
| junto das populações.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com a chegada da | |
| estabilidade governativa, os anos 80 assistiram à explosão das | |
| chamadas Rádios Piratas. Um fenómeno com décadas noutros | |
| países (como Inglaterra, por exemplo), em Portugal só se entendia | |
| num panorama em que a liberdade garantia o acesso ao espaço hertziano. | |
| E de repente passou-se de um panorama de quase-deserto com pouquíssimas | |
| ofertas no espectro radiofónico para uma autêntica confusão | |
| em que rádios de bairro, de associações estudantis ou de | |
| simples curiosos enchiam o éter sem qualquer tipo de regulamentação | |
| criando um autêntico caos hertziano. Com a intervenção do | |
| Estado nessa área, muitas das Rádios Piratas desapareceram e outras | |
| deram lugar a Cooperativas mais profissionalizadas e sancioandas pela legalidade. | |
| </font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><BR> | |
| O panorama que hoje conhecemos começou a estabilizar-se no início | |
| da década de 90. E o meio rádio português tem-se revelado | |
| uma agressiva área de negócios com inúmeros projectos a | |
| nascerem, fecharem e mudarem de mãos todos os anos. Por outro lado, ao | |
| nível local, a rádio conseguiu realizar uma verdadeira regionalização | |
| que politicamente ainda não foi realizada. O fenómeno das rádios | |
| locais é claro e, talvez com maior impacto ainda do que a imprensa regional, | |
| conseguiu ir ao encontro das especificidades de cada região.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Vários projectos | |
| de rádio marcaram a era das estações Privadas em Portugal. | |
| Vários projectos e linhas de pensamento. Quer se goste ou não, | |
| rádios como a TSF, Correio da Manhã Rádio, Rádio | |
| Cidade ou XFM criaram estilos, descendências e, cada uma à sua | |
| forma e escala, tiveram impacto.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O caso da TSF é | |
| mais do que óbvio. Trata-se de uma rádio especializada em informação | |
| em que a animação musical é minoritária em termos | |
| de horas de emissão. Hoje em dia, esta é uma estação | |
| de referência com muitos profissionais reconhecidos no mundo do jornalismo.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No campo musical, | |
| cada um dos outros exemplos citados criou um estilo. Projectos como o Correio | |
| da Manhã Rádio marcaram decididamente o início dos anos | |
| 90. Pela sua equipa jovem passaram nomes como o de José Mariño | |
| (hoje na Antena 3), Margarida Pinto Correia (directora da revista "Cosmopolitan") | |
| ou José Carlos Cunha (da Rádio Comercial e um dos convidados deste | |
| debate). O CMR distinguiu-se da maior parte dos projectos seus contemporâneos | |
| por apostar em programas de autor e em música de qualidade abrindo de | |
| certa forma caminho para projectos como a XFM. No CMR, como noutros projectos | |
| contemporâneos, começaram igualmente a ensaiar-se os modelos de | |
| playslist que haveriam de colocar um decisivo ponto final na era dos programas | |
| de autor.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A empresa proprietária | |
| do Correio da Manhã Rádio adquiriu posteriormente a Rádio | |
| Comercial por via do processo de privatização de que havia sido | |
| alvo. O CMR acabou por se diluir no novo e mais amplo (porque também | |
| nacional) projecto da Rádio Comercial. Antes de chegar ao ponto em que | |
| se encontra hoje a Rádio Comercial trocou mais uma vez de mãos. | |
| Hoje em dia, Luis Montês, ex-director das extintas XFM e Rádio | |
| Energia, é o director da Rádio Comercial.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recentemente, a | |
| Media Capital/SOCI, Grupo detentor da Rádio Comercial adquiriu igualmente | |
| a Rádio Cidade. Esta rádio foi erguida com base num popular modelo | |
| brasileiro que provou ser uma fórmula de sucesso. Música popular, | |
| animação de antena constante, contacto directo com os ouvintes | |
| e programas de auscultação do gosto popular são algumas | |
| das características de um projecto que, a nível local, disputou | |
| audiências aos maiores projectos de rádio.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pela XFM passou | |
| alguma da mais arrojada música que as antenas de rádio portuguesas | |
| já transmitiram. O autodenominado projecto de rádio "para | |
| uma imensa minoria" contou com colaboradores prestigiados como Ricardo | |
| Saló (hoje na TSF), António Sérgio (que regressou à | |
| Rádio Comercial) ou Isilda Sanches (actualmente na Rádio Marginal | |
| e outra das convidadas deste debate). Para lá das razões administrativas | |
| ou executivas que levaram à falência desta proposta, ficou a prova | |
| de que nem só de playlists mais ou menos baseados nos modelos americanos | |
| de Top 40 pode viver uma estação recuperando e revitalizando o | |
| conceito do programa de autor com resultados bastante satisfatórios.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Actualmente, o | |
| Estado detém o controle da RDP, grupo que conta com a Antena 1 (mais | |
| voltada para a informação e para a música portuguesa), | |
| Antena 2 (música clássica) e Antena 3 (rádio jovem). Nas | |
| mãos da Igreja continua o Grupo Renascença com a RFM, o Canal | |
| 1 da Renascença e, lançado mais recentemente, o projecto Mega | |
| FM. Os restantes operadores são privados.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No final da década | |
| o fenómeno a que se assiste na rádio é o da normalização, | |
| para o que em muito terá contribuído a difusão das playlists. | |
| Por oposição ao denominado programa de autor - em que uma personalidade | |
| se revela através da sua escolha pessoal que poderá obedecer ao | |
| seu gosto particular ou a um conceito que se quer explorar (música de | |
| um determinado género, época ou país, por exemplo) - a | |
| playlist procura normalizar o tipo de sons que se podem ouvir numa determinada | |
| estação. Recorrendo a um número constante de temas, que | |
| vão sendo lentamente rodados sendo progressivamente substituídos | |
| por novidades, as playlists seguem diversos critérios, sendo os de popularidade | |
| os mais comummente utilizados. Os temas dos tops têm entrada garantida | |
| nas playlists. E uma permanência prolongada nestas mesmas playlists significa | |
| uma passagem potencialmente satisfatória pelos tops. Ou seja, dois universos | |
| que se regeneram mutuamente. Com as playlists, com sistemas de rodagem aperfeiçoados | |
| por computadores que ditam o número de vezes e as horas a que cada tema | |
| passa, a personalidade do apresentador passa para segundo plano. Já não | |
| é o seu gosto pessoal que está em causa, mas os objectivos comerciais | |
| da estação.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O caso extremo | |
| das rádios de playlist é o das rádios computorizadas. Geralmente | |
| no caso de estações temáticas - como a Rádio Nostalgia, | |
| pioneira neste formato, a Romântica FM, a Rádio Comercial da Linha | |
| ou a Memória FM - a animação é minimizada ao máximo | |
| e a "estação" é operada de um pequeno espaço | |
| onde um computador com uma memória generosa vai debitando música | |
| e anúncios sem interferência humana "em directo". No | |
| fundo, este conceito de estações vai beber à ideia da companhia | |
| Muzak que nasceu com o propósito de fornecer a espaços funcionais | |
| (fábricas, elevadores, hotéis, bares…) música "enlatada" | |
| ambiente. Nestas rádios o leque de temas é geralmente reduzido, | |
| pelo que passam bastantes vezes as mesmas músicas. Para pessoas que querem | |
| apenas ouvir o que já conhecem.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Actualmente, a | |
| entrada nas playlists das estações de maior audiência é | |
| disputada com agressividade pelas editoras musicais que nessa actividade investem | |
| dinheiro, tempo e recursos humanos com o objectivo de fazerem os seus discos | |
| venderem e assim obterem o retorno dos seus investimentos. Mas com o "números | |
| clausus" das playlists as entradas não são fáceis. | |
| E, no panorama português como no internacional, a rádio é | |
| sem dúvida um dos veículos mais importantes para transportar um | |
| disco para o sucesso.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Não existe | |
| em Portugal nenhuma estação de rádio dedicada 100% à | |
| música pop portuguesa (entendendo-se aqui música pop como o amplo | |
| território onde se poderão avistar tanto os Excesso como Rui Veloso | |
| ou os Cool Hipnoise). Se por um lado o fenómeno que ficou conhecido pela | |
| onomatopeica designação Pimba se apoia muito na dedicação | |
| quase exclusiva a essa "escola" por parte de uma complexa rede das | |
| rádios locais, não existe real sustento radiofónico para | |
| outros fenómenos de produção, digamos assim, mais elevada | |
| como os GNR, os Xutos e Pontapés ou os Silence 4 que têm que disputar | |
| espaço nas playslists às Madonnas ou Metallicas internacionais. | |
| E se há quem defenda que essa disputa é apenas saudável | |
| e que com o nível técnico a que a música portuguesa já | |
| chegou é possível criar produtos de qualidade tão elevada | |
| como os que têm origem no estrangeiro, também não há | |
| como não reconhecer que essa disputa é inglória para quem, | |
| como os artistas portugueses, não disfruta do mesmo amparo televisivo | |
| (com MTV's e VH1's por exemplo) nem sequer dos mesmos budgets promocionais. | |
| Há por isso quem defenda que os casos de êxito massivo na música | |
| portuguesa acontecem não graças ás rádios, mas apesar | |
| delas.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Estas ideias têm | |
| estado na base de uma ampla discussão pública onde se tem questionado | |
| a validade das playlists, o papel do Estado na regulamentação | |
| da orientação das rádios e, claro, as famosas e nunca cumpridas | |
| quotas de difusão, mesmo nas rádios controladas pelo Estado. Se | |
| a intervenção estatal directa através da criação | |
| de leis levanta questões complexas aos apologistas da liberdade e a quem | |
| acredita que a música portuguesa não deve sobreviver à | |
| custa de nenhum género de proteccionismo, por outro lado como não | |
| estabelecer uma relação directa entre a saúde das indústrias | |
| musicais francófonas e castelhana e a enorme penetração | |
| das músicas locais nas playlists dos respectivos países?</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Passando dos territórios | |
| ainda assim menos mal tratados da pop e do mainstream nacional para a música | |
| das minorias, independentemente da sua origem geográfica, o panorama | |
| é ainda mais desastroso. Com a falência da XFM, onde se ancoravam | |
| muitos dos novos rumos da música contemporânea, e não apenas | |
| da pop, as imensas minorias que nessa estação se viam reconhecidas | |
| têm lamentado a perda do seu farol radiofónico. Em Inglaterra, | |
| onde o espectro radiofónico é apertadamente vigiado, os concursos | |
| para novas frequências são abertos com limites rígidos. | |
| Ou seja, abre-se um concurso para uma nova rádio local de jazz ou de | |
| pop-rock ou de desporto e não para uma nova rádio cuja orientação | |
| será determinada pelos seus donos. Por outro lado, quem ganhar o concurso | |
| não fica automaticamente com uma estação de rádio | |
| assegurada pois tem ainda de enfrentar um período de teste em que as | |
| suas emissões e programação são observadas por comissões | |
| especializadas que só ao fim de algum tempo emitirão o aval definitivo. | |
| Em Portugal nada disso existe. O Estado não determina a orientação | |
| de nenhuma rádio de cariz comercial. No limite teórico poderemos | |
| vir a ficar com 300 rádios a tocar os mesmos 50 discos. Por outro lado, | |
| na rede de emissoras controladas pelo Estado, só a Música Clássica | |
| recebe honras de exclusividade com a dedicação a tempo inteiro | |
| da Antena 2 a este universo. Onde ficam o jazz, as vanguardas, as músicas | |
| étnicas? Em pequenas ilhas e guetos encerrados aqui e ali em horários | |
| proibitivos.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Caso completamente | |
| único é o das rádios universitárias. Inexplicavelmente, | |
| não existe uma rede nacional de rádios universitárias que | |
| pudesse dotar o nosso país, do Minho ao Algarve, de uma alternativa e | |
| de uma voz para toda uma geração. Ao contrário, mais uma | |
| vez, de países onde as indústrias musicais vivem saudavelmente, | |
| como os Estados Unidos, e onde essas rádios funcionam como viveiro de | |
| uma série de correntes musicais que se movimentam nas margens do mainstream. | |
| </font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pertencendo a Rádio | |
| Universidade Tejo à memória, restam a Rádio Universitária | |
| do Minho e a Rádio Universidade de Coimbra, entidades que sobrevivem | |
| à custa do amadorismo e da imaginação dos estudantes e | |
| que ainda assim vão proporcionando a quem as ouve algumas das melhores | |
| horas de rádio disponíveis. Sem dotação de subsídios | |
| que permitam uma maior profissionalização destas rádios | |
| e sem se prever a abertura de mais rádios universitárias, há | |
| aqui um inteiro segmento de população que não encontra | |
| um espelho ao nível radiofónico. Talvez por isso em anos recentes | |
| se tenha assistido ao triste espectáculo das festas estudantis animadas | |
| por boçais artistas oriundos de zonas musicais esquecidas pelo bom gosto. | |
| Pelo contrário, a subida do nível qualitativo de celebrações | |
| estudantis em cidades como a de Coimbra tem uma relação íntima | |
| com a existência nessa cidade de uma activa rádio operada por e | |
| para universitários. Não será de descurar aqui a culpa | |
| de algumas academias menos enérgicas no facto de não existirem | |
| mais Rádios de cariz universitário.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O panorama de rádio | |
| em Portugal é assim o de um imenso caos, onde as poucas ideias inovadoras | |
| são copiadas até à distorção dos propósitos | |
| originais, onde raramente se desbrava novo território e onde o conceito | |
| de serviço público parece completamente posto de lado. Mas enquanto | |
| o Ministério da Cultura patrocinar em rádios do Estado programas | |
| da autoria de apresentadoras de televisão cujo elevado mérito | |
| cultural é obviamente indiscutível, nem tudo estará perdido. | |
| Ou será o contrário?</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><A HREF="espac99p.htm">Espaço | |
| 1999</A> </font></P> | |
| </BODY> | |
| </HTML> |