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| <HTML> | |
| <HEAD> | |
| <TITLE>Fonoteca Municipal de Lisboa - Espaço 1999 - A crítica</TITLE> <META HTTP-EQUIV="Content-Type" CONTENT="text/html; charset=iso-8859-1"> | |
| </HEAD> | |
| <BODY BGCOLOR="#FFFFFF"> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><I><B><font size="3">A | |
| Crítica </font><BR> | |
| </B></I><u>por Bruno Bènard-Guedes</u></font></P> | |
| <P ALIGN="RIGHT"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="1">"real | |
| art is (...) a representation of things that cannot be seen except by the intellect"</font></P> | |
| <P ALIGN="RIGHT"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="1">Ananda | |
| K. Coomaraswamy, Christian and Oriental Philosophy of Art, p. 11, Dover Publications, | |
| New York, 1956</font></P> | |
| <P></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">1. A História | |
| provou-o vezes sem conta: cruzar o inconciliável é, por definição, | |
| desafio pleno de riscos e pode causar traumatismos irrecuperáveis nos | |
| organismos envolvidos. E, no entanto, alguém / um dia / algures / de | |
| alguma forma ousou sabotar a providência tutelar do bom senso e inventou | |
| a crítica de arte. Plano sensível e plano inteligível fundiam-se, | |
| então, de forma simbólica - o primeiro expresso pelo segundo, | |
| tornando visível o invisível ou, na desejada analogia com o vector | |
| musical, confirmando o silêncio como fonte primeira de legitimação | |
| de todo e qualquer poema sonoro.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">2. Um plano de | |
| confronto de interesses anímicos que se quer, tanto quanto possível, | |
| consciente da maior das suas limitações: o facto de toda a possibilidade | |
| opinativa (e, em particular, a opinião sobre arte) ser, invariavelmente, | |
| reticente. A subjectividade de qualquer escrito que preveja um julgamento de | |
| valores é intransponível - está-lhe nos genes. O grau em | |
| que esta se manifesta depende, tão somente, da capacidade de manipulação | |
| dos critérios críticos de cada um. É essa a arte possível | |
| ao profissional desta área - a sindérese, essa miraculosa síntese | |
| de todas as coordenadas emocionais e racionais (nas subespécies estética, | |
| histórica, cultural, científica, social, económica, etc...) | |
| que, quando reunidas em perfeita harmonia, convocam a justiça crítica | |
| definitiva (ou o mais aperfeiçoado dos seus protótipos).</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">3. Mas a arte é | |
| também um poço de intrigas e inquietações. No apogeu | |
| da sua capacidade de contínua provocação socio-cultural | |
| deve esta ser capaz de pôr em evidência o mínimo denominador | |
| de sensibilidade comum a cada indivíduo da espécie humana, do | |
| mais atento consumidor à mais empedernida das almas. </font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A arte questiona | |
| tudo e todos, inclusivamente a si própria. Quem se deixa, naturalmente, | |
| atrair por tamanho projecto inquiridor é a ciência oficial da idade | |
| dos porquês, a filosofia. Prova inquestionável disso mesmo são | |
| os diálogos recorrentes que especuladores profissionais como Deleuze, | |
| Foucault ou Dérrida mantiveram com obras de arte.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">4. Ideal seria | |
| que os próprios artistas expusessem as ideias subjacentes aos seus programas | |
| criativos em vez de se limitarem a sugeri-las. Muitos o fizeram, permitindo | |
| novas formas de encarar o gesto da criação, detectáveis | |
| de forma tácita nas suas próprias obras. Exemplos cabais dessa | |
| filosofia de entendimento conjuntural programada de dentro para fora and back | |
| again são Amadeo de Souza Cardoso, Sasha Frere-Jones, Paul Klee, Adolfo | |
| Luxúria Canibal, Peter Bogdanovich, J.P. Simões, Eça de | |
| Queiroz ou Sean O'Hagan.</font></P> | |
| <P></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">5. Seja de que | |
| perspectiva for (interna, externa ou mista), a missão da crítica | |
| resume-se, no meu entender, a duas palavras: contrariar o inefável. Provar | |
| que uma imagem não vale necessariamente mais que mil palavras e que as | |
| nossas emoções devem exigir todo o manancial expressivo capaz | |
| de derrubar a tentação fácil da sua utopia comunicacional | |
| intrínseca. Isto para que a última palavra possa caber sempre | |
| ao ser supremo, o ser com capacidade crítica.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><BR> | |
| 6. A capacidade crítica bem modelada é, acima de tudo, uma questão | |
| de educação - educação-ética, mas também | |
| educação-razão e educação-sabedoria. Ou seja, | |
| um background em dose certa e um complemento interpretativo treinado com assiduidade, | |
| quer pela via poética, quer pela via prosaica. Em última instância, | |
| o poder de filtrar factos e constatações pelo mecanismo do bom | |
| senso e pelo quadro de critérios do inconsciente (pertinência das | |
| ideias estéticas em jogo, grau de desafio às normas vigentes, | |
| orientação da exploração ideológica, etc...) | |
| que regulam cada profissional.</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">7. Um dos sintomas | |
| que melhor explicam a distracção generalizada da crítica | |
| dos dias que correm é a incapacidade de reflectir sobre a essência | |
| primeira do objecto pensado. O espelho dessa carência é a profunda | |
| leviandade com que a crítica tende a tratar a matéria prima do | |
| seu trabalho</font></P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por outro lado, | |
| a própria exigência dos leitores (ou o que resta dela) não | |
| é, regra geral, cúmplice de desafios maiores. O consumidor habitual | |
| da opinião crítica assume-se interessado em fugir à letargia | |
| medíocre e intelectualmente castradora do grande mercado, mas fá-lo | |
| de um modo nem sempre muito empenhado. Isto leva a que, do outro lado da barricada, | |
| se tema arriscar mais do que meio passo de cada vez. Aí reside outro | |
| paradoxo incorrigível da maior parte da crítica contemporânea: | |
| o medo do cariz pedagógico e do risco divulgador. Resultado disso é | |
| a acomodação no interior das pseudo-hipóteses de vanguarda, | |
| numa vanguarda de segunda linha, já estabelecida, já rendida aos | |
| encantos de quem opta por não a questionar, enfim, uma vanguarda que | |
| já deixou de lutar pelo seu estatuto. E é aí, então, | |
| na vanguarda já digerida e aprovada pelo mercado, que a crítica | |
| se sente confortável. Daí até à criação | |
| dos seus próprios dogmas dista um breve passo - e de sentidos teimosamente | |
| treinados para a previsibilidade se recebem os paradigmas emergentes.</font></P> | |
| <P> </P> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><A HREF="espac99p.htm">Espaço | |
| 1999</A> </font></P> | |
| </BODY> | |
| </HTML> |