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| <HTML> | |
| <HEAD> | |
| <TITLE>Fonoteca Municipal de Lisboa - Espaço 1999 - O Panorama Editorial Português</TITLE> <META HTTP-EQUIV="Content-Type" CONTENT="text/html; charset=iso-8859-1"> | |
| </HEAD> | |
| <BODY BGCOLOR="#FFFFFF"> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><I><B> <font size="3">O | |
| PANORAMA EDITORIAL PORTUGUÊS - Momentos de glória...</font> <BR> | |
| </B></I> <u>Por Rui Miguel Abreu</u></font></P> | |
| <p></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><br> | |
| Para se iniciar da "melhor" forma este texto poder-se-ia dizer que | |
| as relações entre artistas e editoras asssumem praticamente tantas | |
| formas quantas a soma de editoras e artistas existentes. E estas especificidades | |
| assumem características ainda mais "específicas" (passe | |
| obviamente a redundância) quando se fala dos diferentes países | |
| para onde a indústria global da música se estende.</font></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas há obviamente | |
| pontos de contacto, fórmulas, "modus operandi" quase estandardizados | |
| nestes modos de relacionamento entre artistas e editoras. Falando do caso português, | |
| onde os apoios estatais à edição musical são quase | |
| nulos e onde nem sequer existe um ambiente fiscal especial nesta área | |
| (com o IVA aplicado no comércio dos discos a ser um dos factores responsáveis | |
| pelo elevado preço dos CD's), é possível dizer-se que se | |
| vive um momento especial à beira do século XXI.</font></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A indústria | |
| musical portuguesa passou, em primeiro lugar, a ser digna desse nome. Editoras | |
| diferentes, com posturas diferentes, catálogos diferentes e estratégias | |
| diferentes operam neste momento no mercado nacional com resultados e objectivos | |
| também, como é natural, diferenciados. </font></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Apontando a lente | |
| do nosso olhar para o início dos anos 80, a época apontada normalmente | |
| como o "boom" da indústria, quando a música deixou de | |
| estar especificamente ao serviço de uma renovação das mentalidades | |
| obviamente ligada à revolução, entende-se que, em duas | |
| décadas, foram dados passos de gigante. A indústria nacional, | |
| conseguiu nomeadamente a proeza de todos os anos registar um crescimento positivo, | |
| crescimento esse que chega mesmo a contrariar a tendência doutros mercados | |
| a nível europeu.</font></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A palavra que mais | |
| facilmente descreve o mercado português em inícios da década | |
| de 80 é "ingenuidade". Nesse momento aprendeu-se, um pouco | |
| à força, a fabricar grupos, a inventar fenómenos com esses | |
| grupos, a procurar soluções para estruturar carreiras. E dado | |
| o carácter específico do caso português - uma revolução | |
| recente, um incendiar dos ideais, um clima político pouco propício | |
| ao desenvolvimento da pop que a conjuntura poderia ver como um "luxo burguês" | |
| - a verdade é que se pode dizer que se aprendeu muito em pouco tempo. | |
| Inventou-se uma modernidade, inventou-se uma forma "portuguesa" de | |
| se estar na música. Enfim, inventaram-se os anos 90.</font></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O caminho que hoje | |
| os grupos têm que percorrer para chegar aos discos continua no entanto | |
| a ser complicado. Mesmo com a entrada das multinacionais no nosso mercado e | |
| a abertura dessas multinacionais a catálogos portugueses e mesmo com | |
| a disseminação das independentes, os grupos e artistas que procuram | |
| o amparo de uma editora para se lançarem numa carreira discográfica | |
| continuam a ter que percorrer um "calvário" mais ou menos longo | |
| para se afirmarem.</font></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nos anos 80 os | |
| chamados Concursos de Música Moderna (de que ainda sobrevivem alguns | |
| exemplares) serviram como o grande balão de oxigénio da indústria, | |
| revelando novos grupos que depois iam sendo "pescados" pelas editoras. | |
| Nos anos 90, as formas de um grupo chegar às editoras têm sido | |
| mais variadas. </font></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os concursos continuam | |
| ainda a ser capazes de revelar bandas (Blind Zero e Silence 4 revelados pelo | |
| Termómetro Unplugged), mas a imprensa, a rádio, os concertos ao | |
| vivo (com a disseminação de Festivais a criarem mais palcos para | |
| novos valores se apresentarem - e felizmente, hoje já não é | |
| incomum ver um grupo sem disco nem contrato a tocar para grandes multidões: | |
| Belle Chase Hotel, Gift ou Coldfinger são exemplos recentes possíveis) | |
| e a opção das maquetes são outras vias possíveis.</font></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esta última | |
| forma de apresentar às editoras o trabalho de novos grupos tem sido a | |
| mais comum para levar novos valores à edição. Qualquer | |
| editora com catálogo nacional tem um vasto depósito de propostas | |
| com que os grupos procuram influenciar os respectivos responsáveis pelos | |
| gabinetes de Artistas e Reportório (A&R). Com a crescente acessibilidade | |
| de tecnologia de gravação caseira e a aumenta de oferta de estúdios | |
| e consequente baixa de preços, hoje em dia uma gravação | |
| decente pode estar ao alcance de qualquer tipo de bolsa. Um efeito lateral desta | |
| "democratização" do acesso à tecnologia de gravação | |
| reside no facto de com tantas ofertas (há editoras onde chegam mais de | |
| uma dezena de novas maquetes por dia... ) ser difícil dar a devida atenção | |
| a todas as propostas. </font></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por isso mesmo, | |
| os grupos passaram igualmente a cuidar a imagem das próprias maquetes | |
| e já não é invulgar quem leve essa atitude até ao | |
| fim, apresentando produtos que, tanto ao nível do som como da imagem, | |
| estão já muito próximos da forma final. Esta tem sido aliás | |
| uma tendência das editoras, ou seja, investir em grupos cujo conceito | |
| apresenta já um grau de desenvolvimento bastante avançado. Isto | |
| significa não apenas ideias em relação à imagem | |
| que se cola à música (é cada vez mais impossível | |
| vender música sem imagem, nesta época de tecnologias multimédia | |
| e televisão "around the clock"), mas também as estruturas | |
| que um grupo precisa para sobreviver ao nível do agenciamento (gestão | |
| de carreira ao vivo) e management (gestão de carreira). Por isso mesmo, | |
| muitos gabinetes de A&R têm começado a procurar fornecedores | |
| "exteriores" de novo talento, apostando em grupos que apresentam já | |
| todos os elementos que acreditam ser necessários à sustentação | |
| de uma ou mais edições discográficas (conceito, música, | |
| imagem, agenciamento...).</font></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O aumento do número | |
| de propostas (são hoje editados mais discos de música feita em | |
| Portugal do que em qualquer outro momento da nossa história) também | |
| levou à elevação do nível de complexidade e sofisticação | |
| destas propostas. Os vídeo-clips de produção nacional começam | |
| a libertar-se da condição de "parentes pobres" dos vídeos | |
| que todos os dias vimos em canais como a MTV, a qualidade técnica dos | |
| discos (com as editoras a recorrerem cada vez mais frequentemente a produtores | |
| de renome internacional) também cresceu (já não é | |
| possível dizer-se se um disco foi gravado em Portugal pelo som de bateria, | |
| como acontecia até há bem pouco tempo) e a nossa música | |
| compete, em termos de qualidade, cada vez mais em pé de igualdade com | |
| a música que as multinacionais todos os dias disponibilizam no nosso | |
| país.</font></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O que nos leva | |
| á questão da internacionalização. Essa continua | |
| a ser a grande mácula do nosso mercado, a sua relativa pequenez. Para | |
| muitos grupos, a ideia de uma carreira internacional continua a ser uma quase-obsessão. | |
| Neste caso, as multinacionais não se têm revelado propriamente | |
| a porta mais directa para isso acontecer (ao exemplo dos Madredeus, sustentado | |
| por uma multinacional, pode contrapor-se o de Dulce Pontes, lançado por | |
| uma independente) e a língua escolhida para os grupos se expressarem | |
| também não parece ser um factor decisivo (os casos mais óbvios | |
| de internacionalização têm quase todos o português | |
| como língua primeira de expressão). A resposta está obviamente | |
| na procura de mercados específicos (como foi o caso dos Madredeus com | |
| o mercado de World Music e New Age) e aí os novos esforços na | |
| área das chamadas músicas de dança parecem os que mais | |
| avançadamente se posicionam para a conquista dos mercados exteriores.</font></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tendo tudo isto | |
| em conta, é no entanto impossível negar que, apesar do panorama | |
| televisivo estar hoje mais pobre no que à hipótese de divulgação | |
| de música diz respeito, o número de "fenómenos" | |
| de vendas tem aumentado. E a indústria mostra até sinais de renovação | |
| ao mostrar-se permeável à consagração de novos valores, | |
| havendo grupos a atingirem esta condição de fenómeno logo | |
| ao primeiro disco. Isso tem-se revelado como um dos principais factores de renovação | |
| das caras no palco nacional da música, porque as editoras têm aprendido | |
| que nem só os artistas que já por cá andam há alguns | |
| anos conseguem vender e isso tem levado à assinatura de muitos contratos.</font></p> | |
| <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O momento que a | |
| música nacional atravessa é de relativa glória, enfim. | |
| Resta saber mantê-lo.</font></p> | |
| <p> </p> | |
| <P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><A HREF="espac99p.htm">Espaço | |
| 1999</A> </font></P> | |
| </BODY> | |
| </HTML> |