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<TITLE>Fonoteca Municipal de Lisboa - Espaço 1999 - Algumas notas a propósito da morte do rock</TITLE> <META HTTP-EQUIV="Content-Type" CONTENT="text/html; charset=iso-8859-1">
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<BODY BGCOLOR="#FFFFFF">
<P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><I><B> <font size="3">ALGUMAS
NOTAS A PROP&Oacute;SITO DA MORTE DO ROCK</font></B></I></font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><I><B><BR>
</B></I> <u>Por Adolfo Lux&uacute;ria Canibal</u> </font></P>
<p></p>
<p>&nbsp; </p>
<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"> A morte do Rock!!!
Eis algo de que ou&ccedil;o falar h&aacute; pelo menos 20 anos, do cr&iacute;tico
mais professoral ao c&iacute;clico puto-com-a-mania-que-&eacute;-reguila. E
de cada vez que a senten&ccedil;a surge blindada como uma certeza definitiva,
reaparece o Rock mais resplandecente que nunca, a fintar as vozes agoirentas
que lhe celebram as pompas f&uacute;nebres. Mas afinal o que &eacute; isso do
Rock? Que coisa &eacute; esta que se presta a tamanha confus&atilde;o obitu&aacute;ria.</font></p>
<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"> &Eacute; na perspectiva&ccedil;&atilde;o
hist&oacute;rica que devemos procurar a sua delimita&ccedil;&atilde;o, os contornos
deste corpo mutante que se transfigura a cada investida. E a&iacute;, se a c&eacute;lebre
noite de bebedeira reportada por Boris Vian, em que o Sr. Rock e o Sr. Roll
cruzaram os seus del&iacute;rios alco&oacute;licos, pode ser adoptada como uma
bela e divertida lenda para situar a sua origem, a sua g&eacute;nese, de um
ponto de vista musico-sociol&oacute;gico, deve antes ser encontrada na apropria&ccedil;&atilde;o
da m&uacute;sica negra, sobretudo a mais ritmicamente electrizante e sexualmente
apelativa, como o Rythm'n'Blues por parte de uma juventude americana branca
recentemente autonomizada como classe consumidora, na sequ&ecirc;ncia do baby-boom
do p&oacute;s-guerra.<br>
<br>
S&atilde;o estas as duas premissas que v&atilde;o manter uma const&acirc;ncia,
ainda que com oscila&ccedil;&otilde;es, no posterior desenvolvimento do g&eacute;nero
- o branqueamento da m&uacute;sica negra e o ter como destinat&aacute;rio um
audit&oacute;rio juvenil. E &eacute; do seu confronto dial&eacute;ctico que
vai sair a evolu&ccedil;&atilde;o do Rock ao longo dos seus 50 anos de exist&ecirc;ncia,
como pode ser facilmente demonstrado com exemplos avulso retirados das suas
diversas fases criativas. No entanto, para n&atilde;o sobrecarregar o que se
pretende ligeiro, fixemo-nos apenas nos dois momentos mais fracturantes da sua
hist&oacute;ria - o British Beat e o Punk Rock.</font></p>
<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"> Quando o Rock
&amp; Roll, limpo de int&eacute;rpretes negros, tem&aacute;tica domada pela
dec&ecirc;ncia branca e estrutura formatizada, se transforma em Twist e invade
as ilhas brit&acirc;nicas, vai despertar a curiosidade da juventude inglesa
sobre os ritmos negros que lhe pressente na base. &Eacute; a esta descoberta
dos Blues e consequente vontade de os reproduzir, tentando a fidelidade, como
os Bluesbrakers do John Mayall, ou assumindo a sua in&eacute;pcia de ingleses
brancos, como os Beatles, que se deve o multifacetado caldeir&atilde;o baptizado
de British Beat. E &eacute; o mesmo British Beat, por sua vez exportado para
a Am&eacute;rica como a nova m&uacute;sica juvenil, que, apropriado pela juventude
americana, origina um dos arqu&eacute;tipos do g&eacute;nero, cujos representantes
mais famosos, os Byrds, ainda s&atilde;o mat&eacute;ria de revis&atilde;o frequente
por celebridades t&atilde;o desiguais como os REM ou Alex Chilton.<br>
<br>
Quanto ao Punk Rock, nascido da recusa da juventude em identificar-se com as
formas adultas que o Rock tomava, ao pretender a seriedade no concubinato com
a m&uacute;sica sinf&oacute;nica e com o Jazz ou na pura ostenta&ccedil;&atilde;o
de virtuosismos instrumentais rec&eacute;m-adquiridos, assume como programa
de ac&ccedil;&atilde;o a procura no passado da for&ccedil;a e da imediatez juvenil
que acabariam por o definir. &Eacute; assim que, a par da revis&atilde;o do
velho Rock &amp; Roll e do pr&oacute;prio British Beat, vai mais uma vez buscar
inspira&ccedil;&atilde;o &agrave; m&uacute;sica negra, o que no caso do Punk
brit&acirc;nico passa tamb&eacute;m pela tomada de assalto do Reggae jamaicano,
at&eacute; a&iacute; circunscrito aos bairros de imigrantes da capital inglesa.<br>
<br>
Estes dois exemplos s&atilde;o elucidativos, at&eacute; pelo seu car&aacute;cter
de ruptura, do papel das referidas premissas nas muta&ccedil;&otilde;es do g&eacute;nero.
O resto s&atilde;o continuidades, revis&otilde;es de revis&otilde;es, desenvolvimentos
e explora&ccedil;&atilde;o de particularidades, adi&ccedil;&atilde;o e ingredientes...
&Eacute; o que forma a m&iacute;riade de estilos, alguns j&aacute; anacr&oacute;nicos
outros ainda com elevada potencialidade, com que os enciclopedistas e outros
classificadores gostam de sub-dividir o Rock.</font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><br>
E se olharmos para o presente, com a juventude transformada de grupo consumidor
emergente em paradigma social, verificamos que, de Nick Cave, na leitura m&iacute;tica
de branco australiano do Gospel e Blues rural, passando por Jon Spencer, aplicado
na desconstru&ccedil;&atilde;o do Blues el&eacute;ctrico, ou pelos Soul Coughing,
&agrave;s voltas com a sua s&iacute;ntese impressionista de Jazz, Funk e Rap,
at&eacute; aos Massive Attack e toda a onda de Bristol, a depurar no alambique
gal&ecirc;s o Dub e o Reggae dos imigrantes antilheses, ou &agrave; cena Drum'n'Bass,
encarnada na perfei&ccedil;&atilde;o por Goldie, essa mesti&ccedil;agem do Dub
com stress branco, o Rock continua vivo e recomend&aacute;vel e igual ao que
sempre foi: revis&atilde;o de m&uacute;sica negra para consumo de juventude
branca.</font></p>
<p>&nbsp;</p>
<P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><A HREF="espac99p.htm">Espa&ccedil;o
1999</A> </font></P>
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