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<TITLE>Fonoteca Municipal de Lisboa - Espaço 1999 - Independências - Independências - A arte de fazer sózinho</TITLE> <META HTTP-EQUIV="Content-Type" CONTENT="text/html; charset=iso-8859-1">
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<BODY BGCOLOR="#FFFFFF">
<P><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><I><B> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3">EDITORAS
INDEPENDENTES: MITOS E REALIDADES</font><BR>
</B></I> <u>Por Hugo Panzer</u></font></P>
<p></p>
<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><br>
&quot;Nem tudo o que luz &eacute; ouro.&quot; Isto &eacute;, que crit&eacute;rios
podem avaliar a natureza &quot;independente&quot; de uma editora discogr&aacute;fica?
O que significa &quot;independente&quot; neste contexto?<br>
Uma resposta algo linear e formalista dir-nos-&aacute; que editoras &quot;independentes&quot;
s&atilde;o aquelas que funcionam &agrave; margem do circuito das grandes editoras,
multinacionais ou n&atilde;o.<br>
Uma outra resposta, mais elaborada em termos de ideologia e pr&aacute;tica musicais,
afirmar&aacute; que editoras &quot;independentes&quot; s&atilde;o as que editam
a chamada &quot;m&uacute;sica independente&quot;, seja l&aacute; o que isso
for. E esta ideia contagia o com&eacute;rcio de venda de discos, &eacute; s&oacute;
reparar, nas discotecas, nas sec&ccedil;&otilde;es que alinham o material discogr&aacute;fico
proveniente da dita &aacute;rea &quot;independente&quot;.<br>
De tudo isto resulta, muitas vezes, na cabe&ccedil;a de certo tipo de consumidores
de m&uacute;sica, a ideia de que se &eacute; &quot;independente&quot; o produto
&eacute; aceit&aacute;vel, se n&atilde;o o &eacute; o produto n&atilde;o tem
qualidade. O problema &eacute; que, quando nos lembramos do facto de grupos
como os Clash, Siouxsie &amp; The Banshees, Wire e muitos outros terem publicado
a totalidade ou parte da sua mais apreci&aacute;vel m&uacute;sica em grandes
editoras, tudo isto se torna algo confuso. E &eacute;, por isso, natural que
alguns pensem que esta etiqueta &quot;independente&quot; &eacute; mais uma etiqueta
balofa, mistificadora e oportunista que s&oacute; existe para captar o interesse
(e os tost&otilde;es) de alguns incautos. Neste contexto, &eacute; interessante
dar uma vista de olhos pelos tops de vendas de editoras &quot;independentes&quot;
em qualquer per&iacute;odo hist&oacute;rico. Jason Donovan ao lado dos Crass,
Kylie Minogue a par dos Pere Ubu, etc. e etc. Ao fim e ao cabo, com excep&ccedil;&atilde;o
de alguns mecenas endinheirados, e numa situa&ccedil;&atilde;o de economia de
mercado, o objectivo de todas as editoras &eacute; ter lucros, ou pelo menos
n&atilde;o ter preju&iacute;zos.<br>
E voltamos ao prov&eacute;rbio citado no in&iacute;cio, que, por outras palavras,
significa que &eacute; necess&aacute;rio separar o trigo do joio. Quem tiver
uma ideia da evolu&ccedil;&atilde;o da ind&uacute;stria discogr&aacute;fica
desde as primeiras d&eacute;cadas deste s&eacute;culo at&eacute; aos nossos
dias n&atilde;o pode deixar de assinalar a import&acirc;ncia das verdadeiras
editoras independentes (sem aspas) no desenvolvimento das mais variadas formas
de m&uacute;sica popular (blues, jazz, rhythm n' blues, rock and roll, etc.).
Como um pequeno contributo para assinalar essa import&acirc;ncia, aqui ficam
algumas notas hist&oacute;ricas, e n&atilde;o s&oacute;, sobre esse fen&oacute;meno
da edi&ccedil;&atilde;o discogr&aacute;fica independente.</font></p>
<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Por volta de
1953-1954, momento do nascimento do rock n' roll, existem nos E.U.A. cinco grandes
editoras. No entanto desde a d&eacute;cada de 20 surgem editoras regionais/locais
que t&ecirc;m como objectivo publicar certos g&eacute;neros musicais (blues
e jazz por exemplo) cultivados essencialmente por m&uacute;sicos negros. Veja-se
o caso de editoras como a Chess e a Atlantic.</font></p>
<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. As grandes editoras
n&atilde;o dormem, o racismo existe tamb&eacute;m na ind&uacute;stria discogr&aacute;fica
e elas atacam o mercado da chamada &quot;race music&quot; (a tal m&uacute;sica
feita por negros para um p&uacute;blico negro minorit&aacute;rio). Por vezes
a t&aacute;ctica das grandes editoras &eacute; mais refinada, pegam nos originais
e sujeitam-nos a vers&otilde;es feitas por m&uacute;sicos brancos que ado&ccedil;am
(isto &eacute;, e literalmente, branqueiam) esses originais. E at&eacute; chegam
a criar editoras subsidi&aacute;rias para captar essas franjas marginais do
mercado discogr&aacute;fico.</font></p>
<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Na d&eacute;cada
de 50, o advento do rock and roll &eacute; acompanhado por uma cada vez maior
actividade de pequenas editoras que come&ccedil;am a disputar os tops com as
grandes editoras. Muitas daquelas pequenas editoras come&ccedil;am a funcionar
como trampolins para as carreiras de sucesso de muitos artistas: veja-se o caso
de Elvis Presley, que come&ccedil;a a gravar para a Sun Records de Memphis e
que, ap&oacute;s a edi&ccedil;&atilde;o de cinco singles, se passa para a grande
RCA.</font></p>
<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Essencial para
a sobreviv&ecirc;ncia das pequenas editoras independentes &eacute; o papel de
disc-jockeys radiof&oacute;nicos. Alan Freed, de 1952 at&eacute; finais da d&eacute;cada,
recusa-se a passar nos seus programas as vers&otilde;es revistas das grandes
editoras, optando pelos originais produzidos pelas independentes. Resultado
disto, no final da d&eacute;cada, Alan Freed &eacute; acusado pelas grandes
editoras de receber dinheiro para passar os discos dos concorrentes e &eacute;
condenado.</font></p>
<p></p>
<p></p>
<p></p>
<p></p>
<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><br>
5. Um exemplo de como o aparecimento de editoras independentes se verifica noutros
g&eacute;neros musicais servindo outros des&iacute;gnios &eacute; a cria&ccedil;&atilde;o
nos finais dos anos 50, da editora Saturn pelo m&uacute;sico de jazz Sun Ra.
Aqui, o principal objectivo &eacute; o controlo art&iacute;stico e est&eacute;tico
da produ&ccedil;&atilde;o musical do artista (o que nem sempre aconteceu com
muitas editoras independentes).</font></p>
<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Com altos e
baixos chegamos a 1976. &Eacute; curioso como alguns iluminados ignorantes se
referem a este per&iacute;odo do punk/new wave como o do aparecimento das editoras
independentes, fazendo t&aacute;bua rasa de d&eacute;cadas de hist&oacute;ria.
&Eacute; verdade que muitas pequenas editoras surgem nessa &eacute;poca trepidante.
Os Buzzcocks, os Fall, os Cure e muitos outros come&ccedil;aram por editoras
independentes. Curiosamente, os Sex Pistols n&atilde;o... Mais uma vez, as grandes
editoras n&atilde;o est&atilde;o a dormir: ou correm a assinar contratos com
os novos artistas ou fundam as habituais editoras subsidi&aacute;rias. Os tubar&otilde;es
nunca querem perder pitada do banquete.</font></p>
<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Por tudo o que
se disse, &eacute; necess&aacute;rio saber at&eacute; que ponto uma editora
&eacute; independente desde logo em termos formais e quantas editoras apresentadas
ou percepcionadas como independentes o s&atilde;o na realidade?</font></p>
<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Em termos de
mat&eacute;ria musical produzida a verdadeira independ&ecirc;ncia est&aacute;
por um lado na liberdade de cria&ccedil;&atilde;o e, por outro lado, na distribui&ccedil;&atilde;o
significativa do produto discogr&aacute;fico pelos consumidores. Por isso a
produ&ccedil;&atilde;o independente dever&aacute; criar redes de distribui&ccedil;&atilde;o
independentes e eficazes. Pregar no deserto pode satisfazer o ego e ser sinal
de integridade, mas n&atilde;o capta adeptos nem contribui para uma mudan&ccedil;a
assinal&aacute;vel de mentalidades.</font></p>
<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. N&atilde;o se
deve ser dogm&aacute;tico nem acreditar em mitos sem fundamento - na verdade
nem tudo o que &eacute; mau nos chega das grandes editoras e nem tudo o que
&eacute; bom nos vem das editoras independentes. Desconfio que grande parte
dos aberrantes tops dos reis da m&uacute;sica nacional &eacute; proveniente
das editoras independentes!</font></p>
<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. Nos nossos
dias, como no passado, a exist&ecirc;ncia de editoras verdadeiramente independentes
&eacute; importante. Ao relembrar o que se passou durante o designado boom do
rock portugu&ecirc;s nos in&iacute;cios da d&eacute;cada de 80, podemos ficar
com uma ideia do papel nefasto que a quimera de assinar por uma grande editora
representa. Ao fim e ao cabo continua a haver um grande diferen&ccedil;a entre
fazer m&uacute;sica simplesmente com o fito de ganhar dinheiro, como se poderia
ganhar em qualquer outra profiss&atilde;o, e fazer m&uacute;sica por prazer.
E continua a haver uma grande diferen&ccedil;a entre dirigir uma editora por
crit&eacute;rios puramente contabil&iacute;sticos e de distribui&ccedil;&atilde;o
de dividendos e dirigir uma editora motivado por op&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas
mais ou menos desinteressadas. O pior &eacute; que mesmo os mais idealistas
esbarram sempre com o problema do dinheiro. Volta e meia, uma pequena editora
at&eacute; consegue alcan&ccedil;ar um estatuto semelhante aos das grandes editoras
(veja-se o caso da Island e da Virgin).</font></p>
<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em resumo, uma
editora independente, quer ao n&iacute;vel formal quer ao n&iacute;vel art&iacute;stico,
pode ser uma op&ccedil;&atilde;o vi&aacute;vel em termos econ&oacute;micos.
Para muitas formas de express&atilde;o musical pode ser a &uacute;nica sa&iacute;da
poss&iacute;vel ainda que se sujeitem nos termos actuais a uma promo&ccedil;&atilde;o
e divulga&ccedil;&atilde;o residuais. Quem se abalan&ccedil;a numa aventura
destas &eacute; melhor ter em conta o aviso que se encontra &agrave; entrada
do Inferno de Dante: quem l&aacute; entrar &eacute; melhor perder logo toda
a esperan&ccedil;a. E, &quot;last but not least&quot;, os &quot;vinilman&iacute;acos&quot;
bem podem agradecer a muitas editoras independentes, principalmente na &aacute;rea
da chamada dance music, o facto de as velhinhas rodas pretas n&atilde;o terem
sofrido o mesmo destino dos dinossauros. </font></p>
<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><u>P.S. </u><br>
- Pergunta: &quot;H&aacute; algum pa&iacute;s em que praticamente toda a produ&ccedil;&atilde;o
musical, desde h&aacute; quase 40 anos, assenta em editoras para todos os efeitos
independentes?&quot;<br>
- Resposta: &quot;Sim, a Jamaica.&quot;<br>
Pensem neste exemplo.</font></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><A HREF="espac99p.htm">Espa&ccedil;o
1999</A> </font></p>
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