Skip to content
Find file
Fetching contributors…
Cannot retrieve contributors at this time
417 lines (355 sloc) 22.2 KB
<!DOCTYPE html>
<html lang="pt">
<head>
<title>VI. A accentuação gráphica</title>
<meta charset="UTF-8">
<meta name="viewport" content="width=device-width; initial-scale=1.0; maximum-scale=1.0;">
<link rel="stylesheet" type="text/css" href="DicionarioAberto.css">
<script src="JS/Common.js" type="text/javascript"></script>
</head>
<body id="da" class="static">
<article class="info hyphenate" lang="pt">
<p>Muitos diccionários portugueses e estrangeiros representam a
pronúncia das palavras, escrevendo-as sonicamente; em
português, <i>immaculado</i> é representado
por <i>i-ma-ku-lá-du</i>; em francês, <i>marginaire</i> por
<i>mar-gi-nêr</i>; em inglês, <i>directory</i>
<i>1 2 2 1</i> por
<i>de-re-k'tu-re</i>.</p>
<p>O systema é admissível e talvez profícuo nas línguas em que se
escreve de uma fórma e se lê de outra; no português, parece-me
improfícuo e incoherente, se não absurdo. Parte-se ingenuamente do
princípio de que o leitor de diccionários não conhece o valor da
sýllaba <i>ca</i>, e representa-se <i>cama</i> por esta
fórma <i>ka-ma</i>; ora, quem ignora o valor da sýllaba <i>ca</i>,
com mais razão devia ignorar o valor da sýllaba <i>ka</i>; mas, se
quiser saber lêr <i>kali</i>, acha apenas <i>ká-li</i>, sem que o
diccionário lhe diga como se pronuncía a primeira daquellas duas
sýllabas.</p>
<p>Se a questão capital é a vogal tónica, dispensemos o inútil e
incoherente formulário sónico, e sirvamo-nos dos conhecidos
accentos gráphicos, que são prata de casa e bôa de lei, se bem que
reduzida e modesta, como de casa que não é rica.</p>
<p>Depois, um português, que consulta o diccionário da sua língua
não precisa que lhe ensinem como se
pronuncía <i>bello</i>, <i>grande</i>, <i>casa</i>,
<i>abril</i>, <i>andar</i>, <i>vestir</i>, <i>campo</i>, etc.,
etc. A difficuldade reduz-se apenas á correcta pronúncia das
palavras <i>agudas</i> e <i>esdrúxulas</i>,
(<i>manganés</i>, <i>pállido</i>...), e ainda das graves, em que a
vogal tónica tem modulação excepcional,
(<i>cêdo</i>, <i>perdigôto</i>...), como das palavras homógraphas,
em que a pronúncia diverge, (<i>séde</i>
e <i>sêde</i>, <i>rôla</i> e
<i>róla</i>, <i>tópo</i> e <i>tôpo</i>, <i>bêsta</i>
e <i>bésta</i>...) Para êstes casos, o accento agúdo e
circunflexo, e para alguns outros o accento grave e o trema, são
elementos bastantes para um regular systema prosódico. Assim o
entenderam, e assim o praticaram judiciosamente, os nossos velhos
lexicógraphos.</p>
<p>Não me refiro por ora á vantagem ou necessidade da accentuação
gráphica na escrita corrente de qualquer obra. Refiro-me
exclusivamente ao léxico, em que há necessidade e obrigação de
indicar a prosódia.</p>
<p>Como é sabido, e desde longa data, o accento agudo tem servido
especialmente para mostrar que uma vogal tem modulação aberta,
(<i>avó</i>, <i>rapé</i>, <i>sinhá</i>, <i>séco</i>, <i>bésta</i>...),
como o accento circunflexo para mostrar que uma vogal tem
modulação fechada,
(<i>avô</i>, <i>português</i>, <i>bêsta</i>, <i>sêco</i>...) Para
as vogaes surdas e para outros valores do <i>e</i>, não temos, e
aínda mal, sinaes diacríticos, bastando-nos todavia a indicação de
que o <i>A</i>, o <i>E</i> e o <i>O</i> em sýllabas finaes,
desacompanhados de accentos gráphicos, têm modulação surda, e
o <i>E</i> antevocálico e não tónico, como em grupos ditongaes, tem o
valor de <i>i</i>, como em <i>ideal</i>.</p>
<p>Entre quantos, em Portugal, se occupam hoje da sciência da
linguagem, difficilmente se encontrará quem não advogue, para
qualquer trabalho escrito, a necessidade de accentuação gráphica
dos proparoxýtonos ou palavras
esdrúxulas: <i>pállido</i>, <i>tépido</i>, <i>hýbrido</i>, <i>autómato</i>,
<i>hippódromo</i>, <i>túmulo</i>...</p>
<p>A divergência está apenas em que alguns eruditos, que eu respeito
e estimo, só admittem o accento agudo como sinal de vogal tónica.</p>
<p>E assim, aínda que a vogal tónica tenha modulação fechada, como
em <i>esplendido</i>, <i>languido</i>, <i>hellespontico</i>, <i>infancia</i>,
êlles
accentuam <i>infáncia</i>, <i>hellespóntico</i>, <i>lánguido</i>, <i>espléndido</i>. E
contudo aquellas vogaes tónicas têm modulação fechada, e para esta
modulação criou-se o accento circunflexo.</p>
<p>Quando digo que a vogal tónica
de <i>explêndido</i>, <i>cândido</i>, etc., tem modulação fechada,
não ignoro que tal vogal é <i>aberta</i> entre o povo do Minho e
em parte da região do Doiro; mas êsse restricto <i>patoá</i> não
invalida o que possa dizer-se da orthoépia geral do país. Nem
o <i>cáurdo</i> (caldo) e o <i>sourdado</i> (soldado) do povo
minhoto; nem o <i>vinégre</i> (vinagre) do baixo Alentejo, nem
a <i>epidêmia</i> (epidemía) e o <i>lête</i> (leite) do Algarve, nem
o <i>espeilho</i> ou <i>espâlho</i> (espêlho) de Lisbôa e Aveiro,
nem o lisboêta <i>riu</i> Tejo (rio Tejo), etc., poderão nunca
influir na representação da pronúncia geral do país.</p>
<p>Ora, a questão prosódica não está simplesmente em distinguir-se a vogal
tónica; está também em distinguir-se a modulação das vogaes <i>O</i>, <i>E</i> e
<i>A</i>; e, se o accento circunflexo fecha a modulação, tenho
difficuldade em admittir accento agudo sôbre uma vogal de
modulação fechada, como nos exemplos citados.</p>
<p>Bem sei que, por qualquer lado que se procure resolver a questão,
a solução nunca será isenta de dúvidas, conhecida a pobreza dos
nossos sinaes diacriticos; mas afigura-se-me que, accentuando
circunflexamente <i>lânguido</i>, <i>explêndido</i>, etc.; e,
sabendo-se que as vogaes <i>O</i>, <i>E</i>, <i>A</i>, quando
nasaes, têm sempre modulação fechada, póde concluir-se que o
accento circunflexo se empregou, não para indicar a modulação,
mas, sim, a vogal tónica.</p>
<p>Eu sei também que na escrita castelhana o accento agudo designa a
vogal tónica, e talvez êsse facto influísse na prática de alguns
meus illustres conterrâneos. Pondere-se, porém, que a accentuação
gráphica estrangeira tem escassa analogia com a nossa; e por isso
o espanhol escreve <i>marqués</i>, porque o <i>e</i> é a vogal
tónica; e os que entre nós escrevem <i>espléndido</i> não se
dedignam de escrever <i>marquês</i>, porque o accento agudo, neste
caso, desfiguraria o valor da vogal. Desfigurá-lo-ia aqui, como o
desfigura em <i>espléndido</i>.</p>
<p>Tenho porém á mão um argumento, que talvez faça hesitar os mais
convictos defensores do accento agudo em qualquer vogal tónica,
aberta ou fechada, de palavras proparoxýtonas.</p>
<p>Occorrem-me pelo menos duas palavras, que podem abalar taes convicções:
<i>neveda</i> e <i>levedo</i>.</p>
<p>São palavras esdrúxulas, como se sabe. Ora, segundo a theoria dos
que só querem accento agudo para a vogal tónica da palavra
proparoxýtona, deveriam accentuar-se <i>néveda</i>
e <i>lévedo</i>; mas, depois de tal accentuação, toda a gente que
não conhecesse taes palavras, lê-las-ia erradamente, porque iria
lêr <i>né-ve-da</i>, <i>lé-ve-do</i>, quando afinal essas palavras
nunca se pronunciaram nem se pronunciam senão <i>nê-ve-da</i>,
<i>lê-ve-do</i>, e assim mesmo as accentuou o bom Roquete, no
seu <i>Diccion. Port. Franc.</i>. Creio que tinha muita razão o
Roquete, que, apesar de tudo, ainda hoje merece lêr-se. E, se êlle
tinha razão, tenho-a eu também.</p>
<p>O que deixo dito de <i>nêveda</i> e <i>lêvedo</i>, é applicável a <i>bêbedo</i>,
<i>trôpego</i>, <i>nêspera</i>, <i>côdea</i>, <i>côvado</i>, <i>ênclase</i>, <i>êncero</i>, <i>êulopho</i>,
<i>êumeno</i>, <i>êumicro</i>, <i>peixôtoa</i>, <i>serôdio</i>, <i>cômoro</i>, <i>devêramos</i>,
<i>fêvera</i>, etc.</p>
<p>Fóra da hypóthese dos esdrúxulos de vogal tónica com accentuação
fechada, hypóthese em que talvez seja lícita a defesa de duas
opiniões distintas, é muito simples a representação prosódica da
linguagem portuguesa, sem recorrer a fallíveis e contradictórios
expedientes sónicos.</p>
<p>Em regra, nas palavras graves, a vogal tónica é vogal aberta: <i>soldado</i>,
<i>donzella</i>, <i>escola</i>... Portanto, accentuam-se as
excepções, quando queremos representar o valor das
palavras: <i>trombêta</i>, <i>rôla</i>...; ou, se organizamos
vocabulário, notamos essas excepções em parênthese, seguidamente
ao vocábulo, assim: &mdash; Lobo, (<i>lô</i>), <i>m.</i> &mdash;
Etc.</p>
<p>É verdade que <i>pâra</i>, <i>câda</i> e <i>sôbre</i> são palavras que se consideram
<i>proclíticas</i>, e que, perdendo por tanto o accento próprio,
pela sua subordinação a uma palavra immediata, (<i>para
nós</i>, <i>cada homem</i>, <i>sobre tudo</i>), não merecem
accento gráphico, no conceito de bons mestres; e, tanta
consideração estes me merecem, que não devo esquivar-me a
significar-lhes o fundamento da minha insignificante divergência.</p>
<p class="separator">* * *</p>
<p>Em primeiro lugar, e sem discutir se <i>pâra</i> deve
considerar-se proclítica, porque talvez se possa sustentar que
as próclises só se dão nos monosýllabos, (<i>*de*
todos</i>, <i>*a* história</i>, <i>*por* Lisbôa</i>),
impressiona-me a reflexão de que os leitores, na sua maioria,
não são phoneticistas nem se dão ao cuidado de destrinçar
próclises e ênclises. De fórma que, devendo o diccionarista
representar a modulação excepcional das vogaes tónicas, e não
representando o valor da alludida vogal naquellas suppostas
proclíticas, o leitor ficaria no direito de lêr <i>pára</i>
quando devia lêr <i>pâra</i>, e poderia dizer <i>sóbre</i>
quando devia dizer <i>sôbre</i>; e <i>cáda</i>, quando devia
dizer <i>câda</i>, etc.; visto que a regra é sêr aberta a vogal
tónica da palavra.</p>
<p>Depois, verifica-se um facto, que talvez não seja indifferente
á questiúncula: &mdash; é que as vogaes <i>e</i> e <i>o</i> das
partículas não são <i>fechadas</i>, são <i>surdas</i>, (<i>*por*
Deus</i>; <i>*de* Roma</i>). Portanto, se
<i>sôbre</i> fosse uma proclítica e tivesse de subordinar-se á
regra das próclises <i>monosyllábicas</i>, teriamos de
lêr <i>*subre* tudo</i>, o que ninguém acceitaria, é claro.</p>
<p>Mas temos mais. <i>Sôbre</i> nem sempre é palavra dependente de
outra. Em náutica designa certas velas: «O vento despedaçou
os <i>sôbres</i>». E até em grammática é palavra independente, como
quando dizemos: «A palavra <i>sôbre</i> é uma preposição». E isto
mesmo se póde dizer de <i>pâra</i>, etc.</p>
<p>E mais ainda: Sem accentuação gráphica, <i>para</i>
e <i>sobre</i> podem sêr prepoqsições e podem sêr verbos; mas,
independentemente do sentido das respectivas locuções, só o
accento gráphico mostrará se são verbos ou preposições.</p>
<p>Quanto ás palavras agudas, toda a gente accentua com razão a
vogal tónica, quando não é <i>u</i> ou <i>i</i>, nem anteposta
a <i>b</i>, <i>c</i>, <i>d</i>, <i>g</i>,
<i>h</i>, <i>l</i>, <i>n</i>, <i>p</i>, <i>r</i>, <i>t</i>, <i>z</i>: <i>manganés</i>, <i>acolá</i>, <i>noitibó</i>.</p>
<p>Como as palavras, em que a vogal da última sýllaba é <i>i</i>
ou <i>u</i>, são geralmente agudas, dispensam accentuação
gráphica: <i>alli</i>, <i>Paris</i>,
<i>Caramuru</i>, <i>alecrim</i>... Portanto, accentuem-se as
excepções: <i>tríbu</i>, (que melhor se escreve <i>tribo</i>, sem
necessidade de accentuação),
<i>Vênus</i>, <i>Sírius</i>, <i>Páris</i>, <i>vírus</i>...</p>
<p>Em regra, as palavras terminadas em <i>r</i> ou <i>l</i>, são agudas: <i>andar</i>,
<i>vestir</i>, <i>lupanar</i>, <i>Manuel</i>, <i>funil</i>, <i>batel</i>... Portanto,
basta accentuar as
excepções: <i>âmbar</i>, <i>açúcar</i>, <i>éther</i>, <i>Aníbal</i>, <i>amável</i>,
<i>possível</i>...</p>
<p>Tem proximamente modulação fechada a terminação <i>eis</i>, em geral: <i>reis</i>,
<i>seis</i>, <i>achareis</i>, <i>deveis</i>... Portanto, accentúo as excepções:
<i>pastéis</i>, <i>coronéis</i>, <i>cascavéis</i>...</p>
<p>Etc.</p>
<p class="separator">* * *</p>
<p>Não farei ponto neste árido assumpto, sem alludir a alguns casos,
em que parece sêr regra a modulação fechada da vogal tónica: taes
são aquelles, em que a vogal tónica é seguida de <i>m</i>
ou <i>n</i>: <i>cama</i>, <i>leme</i>, <i>Roma</i>,
<i>arcano</i>, <i>pena</i>, <i>dono</i>... Logo, basta que se
accentuem as excepções: <i>carbóne</i>, <i>tómo</i> (verbo), <i>mordómo</i>...</p>
<p>Parece, ás vezes, que o <i>m</i>, embora não immediato á vogal, influe no
valor della, de acôrdo com a regra citada: <i>ermo</i>, <i>mormo</i>, <i>termo</i>,
<i>enfermo</i>, <i>esmo</i>, <i>colmo</i>, <i>torresmo</i>, <i>resma</i>, <i>sesmo</i>... Donde
poderá concluir-se que estas fórmas, para bem se interpretarem,
não precisam de accentuação gráphica.</p>
<p>Também a vogal tónica do ditongo <i>eu</i> tem geralmente
modulação fechada, dispensando
accento: <i>meu</i>, <i>teu</i>, <i>vendeu</i>, <i>judeu</i>... Basta
accentuar as
excepções: <i>céu</i>, <i>mausoléu</i>, <i>mastaréu</i>...</p>
<p>Por algum tempo hesitei sôbre se o <i>o</i> do ditongo <i>oi</i>
é, em regra, aberto ou fechado; mas concluí, sem grande
difficuldade, que é fechado:
<i>foi</i>, <i>moio</i>, <i>dois</i>, <i>oito</i>, <i>arroio</i>, <i>joio</i>, <i>soito</i>, <i>toiro</i>,
<i>loiro</i>, <i>vassoira</i>... Donde se infere a legitimidade e
a conveniência de accentuarem as
excepções: <i>dezóito</i>, <i>herói</i>, <i>jóia</i>, <i>combóio</i>,
<i>clarabóia</i>, <i>lóio</i>...</p>
<p>Algumas vezes o accento agudo dispensa o trema, quando póde recair na
vogal tónica; em vez de <i>maïça</i>, <i>maíça</i>; em vez de <i>saïda</i>, <i>saída</i>...
Fóra da vogal tónica, o trema não tem substituição: <i>saïmento</i>,
<i>intuïção</i>, <i>apaülado</i>...<a href="#fn7" class="footnote">7</a></p>
<aside class="overlay" id="fn7"><div class="wrap"><div class="inner">
<p>A última reforma orthográphica, approvada officialmente,
preceituou, por maioria de votos da Commissão reformadora, que em
vez de trema, se use acento grave. É respeitável o preceito, mas
achará difficuldades, que o trema não encontra.</p>
<p>(<i>Nota desta nova edição</i>).</p>
</div></div></aside>
<p>A pobreza de sinaes diacríticos força-nos, por vezes, a usar
accentuação gráphica, que não corresponde precisamente ao valor da
vogal accentuada. Assim, nas variantes <i>ideia</i>
e <i>idéa</i>, usamos na segunda fórma o accento agudo, não só
para indicar a vogal tónica, senão também para mostrar que essa
vogal tem modulação que não é <i>fechada</i> nem <i>surda</i>, e
que a mesma vogal não faz parte de um semiditongo, como
em <i>láctea</i>, <i>áurea</i>,<i>purpúrea</i>...</p>
<p>Em todo caso, o accento agudo
de <i>idéa</i>, <i>corréa</i>, <i>moréa</i>..., fórmas aliás, a
que eu naturalmente
prefiro <i>ideia</i>, <i>correia</i>, <i>moreia</i>..., tem um
pouco de convencional, como nos casos seguintes: &mdash;
Estabelecido, como regra, que são graves ou paroxýtonos os
polysýllabos terminados em <i>am</i> ou <i>em</i>,
(<i>dizem</i>, <i>valem</i>, <i>fazem</i>, <i>ontem</i>, <i>louvam</i>, <i>devem</i>),
natural é que se accentuem graphicamente as excepções,
(<i>retém</i>, <i>contém</i>, <i>armazém</i>, <i>Santarém</i>, <i>também</i>, <i>ninguém</i>...)
Raros serão os polysýllabos terminados em <i>om</i>, mas, dêsses,
não conheço nenhum que não seja oxýtono, dispensando-se por isso a
final accentuação gráphica.</p>
<p>No mesmo caso estão os polysýllabos terminados em <i>im</i>
e <i>um</i>, que, em português corrente, são sempre
oxýtonos: <i>Joaquim</i>, <i>nenhum</i>, <i>fartum</i>,
<i>pingalim</i>... Não exigem accento gráphico. As palavras
terminadas em <i>en</i>, <i>in</i>, <i>on</i> e <i>un</i>, são
avêssas á tradição da língua e, geralmente, só se usam em palavras
eruditas ou scientíficas, e nunca são
oxýtonas: <i>órion</i>, <i>líchen</i>, <i>certâmen</i>, <i>abdômen</i>... Estas
duas últimas fórmas, e suas congêneres, ficarão mais portuguesas,
se lhes dispensarmos o <i>n</i> final, como se fez ao <i>nome</i>,
ao <i>lume</i>, ao <i>crime</i>...</p>
<p>Visto que em fórmas verbaes de terminação nasal há muitas vezes
coincidência phonética de singular e plural, pareceu-me acceitável
o uso do circunflexo para distincção do plural, visto que o
accento agudo já tinha a funcção de designar o oxýtono. <i>Verbi
gratia</i>: «<i>Contem</i>, meus senhores, o dinheiro que êste
cofre <i>contém</i> e não se importem do que as
gavetas <i>contêm</i>.» Convenção, é claro, mas certamente útil,
se não necessária.</p>
<p>Verdade é que alguns escritores e grammáticos distinguem,
naquella hypóthese, singular e plural, com a inclusão de um <i>e</i>:
«Êlle <i>tem</i>, êlles <i>teem</i>.» Outros, talvez mais
acertadamente, nasalam graphicamente o primeiro <i>e</i> daquelle
plural, e escrevem <i>t[~e]em</i>, <i>cont[~e]em</i>... Parece-me
todavia que a distincção phonética, entre o singular e o plural,
não existe na linguagem commum ou vulgar: todo povo, e talvez
muitos eruditos, dizem simplesmente: «Êlle <i>tem</i>,
êlles <i>têm</i>; êlle <i>contém</i>, êlles <i>contêm</i>.» E,
neste caso, a distincção dos números verbaes parece-me
vantajosamente indicada com os signaes, que acompanham os exemplos
alli consignados.</p>
<p class="separator">* * *</p>
<p>Além da vogal tónica, algumas vezes é mister accentuar a vogal
átona, não já servindo-nos do accento agudo, mas do
grave. <i>Corado</i> poderia ler-se erradamente <i>cu-ra-do</i>,
se não accentuássemos <i>còrado</i>; <i>pegada</i>,
(<i>pé-gá-dâ</i>), lêr-se-ia erradamente <i>pegada</i>
(com <i>pe</i> surdo), não se pondo accento grave na primeira
sýllaba, (<i>pègada</i>). O accento agudo, em tal caso, tornaria
tónica a primeira sýllaba, convertendo em esdrúxula uma palavra
que é grave.</p>
<p>O accento grave significa, pois, que a respectiva vogal é aberta,
mas não tónica.</p>
<p>Na accentuação, porém, das sýllabas átonas, o diccionarista deve
manter a mais discreta sobriedade, por motivos de vária índole.</p>
<p>Em primeiro lugar, entre cêrca de quarenta milhões de indivíduos
que falam o português, em todas as partes do mundo, há profundas
dissidências orthoépicas, que seria ocioso corrigir ou capitular
de erróneas. Sobretudo, entre Portugal e o Brasil, as variantes
orthoépicas são numerosas e conhecidas. Dentro do próprio Brasil,
como já notei, a pronúncia não é uniforme.</p>
<p>Depois, nas palavras compostas, de formação erudita, é assombroso
o quadro das irregularidades e divergências prosódicas, como
também já notei.</p>
<p>Em taes casos, portanto, o que prevalece é a natural evolução
phonética e a soberania do uso, que não o arbítrio ou a opinião do
diccionarista.</p>
<p>Limitada, em geral, a representação prosódica do vocabulário á
accentuação gráphica da vogal tónica, pareceu-me vantajoso que, na
definição ou noção de vocábulo, como em qualquer escrita corrente,
se reproduzam os accentos indicados no vocabulário: não é só o
leitor de um diccionário que tem direito a saber o valor prosódico
de uma palavra; qualquer leitor de prosas ou de versos deve vêr no
que lê a indicação clara do valor phonético de cada termo.</p>
<p>É verdade que, em tal matéria, e dada a possibilidade de
divergências fundadas ou infundadas, o diccionarista nada impõe:
propõe.</p>
<p>Na sua qualidade de proposta, a accentuação gráphica, adoptada
pelo autor na generalidade dos seus escritos e apontada no decurso
desta obra, pouco terá com a essência do diccionário, &mdash; que
póde sêr bom ou mau, independentemente daquelle ponto de vista.</p>
<p>O autor propõe; os mais entendidos e o público dispõem.<a href="#fn8" class="footnote">8</a></p>
<aside class="overlay" id="fn8"><div class="wrap"><div class="inner">
<p><a href="#rfn8" class="footnote">8</a> De acordo com a última reforma orthográphica, a que também
está ligada a minha responsabilidade, simplifiquei um pouco, nesta
nova edição, a accentuação gráphica, fóra dos casos em que ella é
da maior vantagem, como nos vocábulos esdrúxulos, nos termos
homógraphos mas não homophónicos, (<i>sêde</i>
e <i>séde</i>, <i>vária</i> e <i>varía</i>), etc.</p>
<p>E assim também, como seja regra que é fechada a vogal tónica da
desinência <i>oso</i>, <i>formoso</i>, <i>idoso</i>, etc., julguei
aqui dispensável a accentuação gráphica e até a indicação
parenthética do valor da vogal tónica. Como é regra sêr aberta a
vogal tónica da desinência <i>osa</i>,
(<i>formosa</i>, <i>rosa</i>, etc.) acentuo as
excepções: <i>espôsa</i>, etc.</p>
<p>Da mesma fórma, sendo geralmente fechadas as vogaes tónicas das
desinências <i>or</i> e <i>er</i>,
(<i>senhor</i>, <i>compor</i>, <i>doutor</i>, <i>comer</i>,
<i>dizer</i>, <i>perder</i>), acentuo graphicamente as excepções: <i>majór</i>,
<i>melhór</i>, <i>colhér</i>, <i>malmequér</i>...</p>
<p>(<i>Nota desta nova edição.</i>)</p>
</div></div></aside>
</article>
</body>
</html>
Something went wrong with that request. Please try again.